Dom, 04 de setembro de 2016
3X Serra do Tabuleiro
Escrito por: Rodrigo Martins
   

O Parque Estadual da Serra do Tabuleiro abarca uma considerável área dos munícipios da outrora Desterro e sua simpática cercania, tais como a famosa Palhoça, Santo Amaro da Mulher do Imperador, Águas Mornas, São Bonifácio, Imaruí e o distinto terceiro polo da terra (deveras conhecido pela alcunha de Paulo Lopes) - perfazendo algo próximo de 1% do território catarinense. De solo, relevo e vegetação quase sempre sorridentes para quem ama uma boa presepada ciclística, a tal Serra em forma de tábua de jogatina (preferencialmente Dama e Xadrez) ostenta um emaranhado de estradinhas com infinitas possibilidades que geralmente surgem do nada e seguem para o além, quase sempre atravessando enlameadas trilhas que cruzam as mais assustadoras florestas. Comumente envolta por uma desorientadora neblina, essa região da Mata Atlântica é trivialmente habitada por bruxas e magos e os antigos aconselham explorar os lugarejos sempre de dia, jamais numa sexta-feira 13 e preferencialmente em paz com o GPS amigo. Na primeira empreitada das três insertas seguidas que fizemos pela Serra, repetimos um trajeto feito um bocado de anos atrás, lá nos primórdios de nossas inusitadas brincadeiras de bicicleta aonde acompanhávamos as dicas do saudoso TrilhasBR com lápis e papel na mão (GPS analógico). Roteiro simplíssimo feito na sua porção maior por uma rua chamada de Nossa Senhora da Rosa Mística que cruza a pequena comunidade da Várzea do Braço em Santo Amaro da Imperatriz, sendo cercado quase que na sua totalidade pelo Parque Estadual da Serra do Tabuleiro. Bergamota, tangerina, mimosa, mexerica, mandarina, poncã, fuxiqueira, tanja, laranja-cravo, clementina ou sabe-se lá como você conhece a nossa vergamota... mas o fato é que a região é infestada pelo adocicado fruto com pés balançando ao vento a torto e a direito e não surrupiar algumas seria considerado pecado por muitos. Entre praguejos e excomungos, ouvimos muito mais do que o necessário de uma feiarrona anciã que tinha todo o jeito de ser adepta de feitiçaria e que debruçada em sua melancólica janela, sibilava malcriações para os atônitos pedalantes. Na cabeça miúda da criatura, aparentemente é preferível ver o precioso fruto abundantemente apodrecendo no chão do que dividi-lo com miseráveis ciclistas.

A rodagem seguinte foi brincada mais ao sul por estradas que cruzam Paulo Lopes, Imaruí e Imbituba. Após três frustradas e desventuradas tentativas de perfazer o – para nós -, enigmático trajeto, acabamos desenvolvendo uma esquisita superstição pela tal estrada dos Espraiados que atravessa um homônimo vilarejo em terras Paulo-lopenses. Na ocasião, a exagerada matinada nos fez deparar com um agourento nevoeiro que encorajou de vez nosso recorrente pessimismo com a bucólica região e a calada manhã teve seu silêncio quebrado apenas pelo deslizar de nossas inquietas bicicletas e por uivos distantes que pareciam desgostar de nossa desconfiada presença. Entre bois e preguiçosos jaguaras que dormiam ao relento, de animais esquisitos somente nós, os humanos. A estrada boa acabou tão logo nos acostumamos com a densa névoa e desde então patinamos morro acima, nos equilibrando entre ensaboadas pedras e pedregulhos, crateras e atoleiros. Além de um pouco de calor, mais para perto do meio da manhã o sol trouxe uma estrada praticamente perfeita para se pedalar, com chão batido tão liso e firme quanto asfalto, tráfego de automóveis quase inexistente e ainda de tempos em tempos alguma árvore frutífera piscava para nós. A bela estrada que margeia a Serra do Tabuleiro termina na SC-437 que liga Imbituba a Imaruí e antes de encararmos o tradicional e sempre zangado vento contra no caminho de volta pela 101, os quatro alambazados sujeitos deram um certeiro desfalque no único restaurante aberto da redondeza.

A trilogia foi finalizada lá em riba, seiscentos e tantos metros acima de onde estamos acostumados a respirar, no Santuário das Águias (AKA: Morro Queimado, Morro Pelado, Morro das Águias Deltas), nos confins de Santo Amaro, sito vinte e poucos quilômetros de Florianópolis e já dentro do Parque Estadual da Serra do Tabuleiro. O pico é mais conhecido pelos praticantes de parapente, asa-delta e outras perturbações asadas, mas também muito frequentado por adeptos de trekking e mountain bike que adoram esticar as canelas bastante morro acima. Da estradinha do Sul do Rio até a rampa de voo livre não é longe, mas sobe absurdamente e se como nós, você encasquetar de vencer o topo pedalando sem nunca descer para empurrar as assustadas bicicletas, vai bufar aos montes e ter uma penosa manhã. Em tempo: A vista é indescritível e vale o esforço que for preciso.

Recentemente, um incêndio de ingrata grandeza devastou uma área de aproximadamente 40 hectares (o equivalente a quarenta campos de Quadribol) na reserva do Parque, prejudicando boa parte da vegetação nativa e colocando em risco os animais e as entidades mágicas que a habitam. Uma centena de combatentes entre bombeiros, policiais, agentes da defesa civil, Aquaman e moradores locais foram mobilizados para conter os focos do incêndio que se espalhou muito rapidamente e somente 28 horas após de um árduo trabalho ininterrupto é que as chamas foram contidas. Apenas alguns poucos dias antes do incendido incidente foi que o nosso grupelho de pseudociclistas se aventurou dando seus volteios e/ou adentrando na Serra do Tabuleiro e muito nos aflige saber do ocorrido, já que para quem pedala a reserva do Parque e tudo o que o cerca é um paraíso para os aventureiros ciclistas. 

 

Nunca esqueçam dos conselhos do camarada Urso Smokey: "Só você pode prevenir incêndios florestais!”...

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Comentários
Qui, 08 de dezembro de 2016
escrito por: Eleonésio Diomar Leitzke
Esse não tinha lido ainda, só posso dizer uma coisa, alguém sempre é reconhecido pelas meias galácticas roubadas da esposa.....rsrs
Seg, 30 de janeiro de 2017
escrito por: Cassiano
Muito legal a pedalada! Esse sábado fiz com a namorada a Várzea do Braço, local lindíssimo e que irei voltar numa tarde, fui de manhã e o rio estava muito gelado, acho que fim de uma tarde de sol deve ficar bom.

Queria saber onde é exatamente o segundo trecho marcado, curti as fotos, esse que fala "estradas que cruzam Paulo Lopes, Imaruí e Imbituba". Tem o percurso no GPSies? Me perdi um pouco ali pra achar.

Valeu!
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