Dom, 26 de maio de 2013
A segunda parte da divertida e bastante cansativa viagem de Páscoa
Escrito por: Rodrigo Martins
   

Mais uma daquelas noites que parece ter durado apenas um único piscar de olhos. O sono foi tão exageradamente pesado que ao acordar tive a sensação de ter morrido por alguns instantes. Sair da cama e tocar os pés no chão descobrindo que ainda perambulava pelo mundo dos terrestres me deixou bastante animado, embora as sequelas na carcaça bastante judiada no dia anterior freavam um pouco esse prazenteiro sentimento. Não tinha Pepsi no café da manhã e me obriguei a tomar suco de laranja, iniciando o dia já bastante desapontado. Cientes da longa jornada pelo mundo do nada que estava por vir e num singelo momento de precaução - fizemos uma generosa marmita que socou de vez a área VIP de nossos estimados alforjes. Tentamos não repetir nossa costumeira enrolação matinal e embora tenha sido um pouco mais tarde do que havíamos combinado, ainda assim conseguimos sair mais cedo do que o nosso habital. O bonito centro urbano da organizada Braço do Norte contrasta aos montes com parte da malcheirosa periferia. Em alguns pontos chega a ser difícil respirar, tamanha a fedentina da criação de suínos. Para piorar, ainda tivemos o desprazer de ouvir o deprimente som de abate de alguns desses desafortunados seres e que acabou ecoando por um bocado de tempo no nosso imaginário, incomodando e nos fazendo repensar algumas coisas. Não bastasse isso, uma longa subida logo no início da jornada acelerada desnecessariamente por uma insensível e barulhenta cachorrada. Não há mais ética nesses pequenos roedores com complexo de cão... Pressão canina morro acima é deveras sacanagem! - deveriam saber.

Pedalamos em torno de vinte e dois quilômetros até chegarmos à pequena – mas nem tanto - Armazém. Pelo dia e horário, e considerando a sorte que geralmente não acompanha os nossos estômagos - não tínhamos muita esperança de encontrar alguma bodega aberta que nos oferecesse qualquer tipo de coisa comestível. Porém, os dias de ração mirrada aparentemente haviam terminado, já que encontramos um restaurante muito bacana e que muito bem nos serviu. Enquanto comíamos e trovávamos com alguns curiosos locais – “quem são vocês? De onde vem? E, para aonde vão?”... quase que nos catalogando como alienígenas extraterrestres -, caía o maior toró no mundo de fora. Os magos do tempo precisam aprender a mexer melhor o caldeirão, pois erraram horrorosamente na previsão desta vez. Um tempinho a mais para descansar melhor, chupar um picolé e descartar o protetor solar de vez - enquanto o aguaceiro não passava.

Com o vento soprando muito forte nas nossas ventas, deslizamos por meia dezena de quilômetros em um impecável asfalto até começar de fato a nossa jornada morro acima. Assim que iniciamos a primeira ladeira, um intrigado e bastante desagradável motoqueiro encosta e pergunta: - Para aonde estão indo? Já bufando, um de nós aponta o indicador em direção ao além e indica com a sobrancelha: - Para lá, Imaruí...Ixiii. Só tem morro pra lá! – insistiu o portador de péssimas notícias. - Não desce nada mesmo? – retrucamos esperançosos, fitando os olhos do sujeito. E, desta vez numa ênfase quase maligna, o cidadão profetizou num tom mais áspero: – daqui pra lá só sobe! Em seguida nos deu as costas e saiu empinando a sua motoca barulhenta sem fazer esforço para esconder o sorriso sínico. Entreolhamo-nos desconfiados e tentamos manter o otimismo, já que se for verdade o que aquela criatura desprovida de simpatia balbuciou, estaríamos indo em direção ao céu e não era isso que o GPS dizia.

Seguimos por quinze quilômetros em uma íngreme subida quase sem fim até aparecer a primeira e tão desejada grande descida. Falamos mal demais daquele motoqueiro sem graça durante esse desagradável trecho, embora ele não tenha dito nada além da mera verdade. As longas subidas minaram o nosso ânimo e aos poucos víamos o tempo passar mais depressa do que conseguíamos nos deslocar.

Vez ou outra o sol aparecia por breves momentos e com o final da tarde vinha junto uma relevante preocupação, já que pelo ritmo que pedalávamos, a tendência era chegar bastante tarde no ainda longínquo hotel. A ideia de abortarmos o terceiro dia da viagem foi ventilada pela primeira vez e por algum tempo argumentamos sobre isso, mas sem nada decidir até então.

Cada vez mais cansados e preocupados, íamos forçando o ritmo do jeito que dava. O forévis doía demais e somente perto do fim das forças paramos para realmente descansar. Já era noite e os sanduíches estocados estavam gostosos demais. Os chacoalhados e hipergelados refrigerantes trincaram as nossas têmporas entrando no organismo quase que como um elixir para a eternidade. Já estávamos sem água e há muito tempo não sabíamos o que era comer. Esfriou rapidamente e ainda tínhamos uma última e longa subida até chegar à parte baixa da bonita plaga.

O alívio veio quando nossas quase esgotadas rodas finalmente giraram pelo asfalto da SC-437. Não havia mais morros, embora o xarope vento contra insistisse em dificultar ainda mais as coisas para a plebe que ali pedalava. Nesse ponto a viagem rendeu bem e não demoramos muito para vencer os quase quinze quilômetros que circundam a parte mais setentrional da Lagoa do Mirim até o cruzamento com a BR - 101. Apenas uma única parada para se hidratar e aliviar um pouco toda a maltratada musculatura do umbigo para baixo. A maior parte do entorno da Lagoa não é iluminada - nos deixando bastante apreensivos, já que dirigir devagar por aquela região não me pareceu um hábito muito comum. Do trevo da BR até o hotel não era tão perto quanto gostaríamos e só conseguimos terminar o dia já passando das 21 horas. O restaurante anexo ao bacana hotel fechava às 22 horas, nos dando tempo somente de encostar adequadamente as sofridas bicicletas, largar as tralhas no chão do quarto, lavar as mãos e os rostos e correr em direção à mesa. Descabelados e contentes, decidíamos nosso destino em argumentos descontraídos enquanto aguardávamos o estrago que estava por vir. Ninguém estava muito a fim de pensar no que iria comer e acabamos decidindo pelo óbvio: X-Salada. Renegado, Fernando impôs uma escolha mais refinada para a nossa almejada janta e acabamos indo de peixe, camarão, salada... tudo muito bom e por incrível que pareça, pelo mesmo preço do descriminado X-Salada. Já no quarto, de banho tomado e após uma longa digestão a frente da TV – optamos por abortar o tal terceiro dia. Cansados ao extremo, forévis lascados, suspensão da bicicleta do Fernando arriada e sem falar no dueto “Marcelo e Vaso sanitário (bacio, para os íntimos)”, já que aparentemente o requintado gosto do Gourmet Fernando não caiu muito bem na sensível barriga do nosso desafortunado amigo. De manhã cedo ainda deu tempo de saborear um belo café da manhã e enquanto esperávamos o guincho amigo, demos uma breve caminhada na bonita praia da Vila em Imbituba sob um revigorante sol de quase inverno.

Nossos sinceros agradecimentos a Chico e Regi que trouxeram as nossas novas filmadoras lá de longe, do primeiro mundo aonde tudo é mais barato; Dona Vanderléia pelos quitutes que impediram três felizes ciclistas de delirarem de fome; Dona Irene, Aldo, Zela e família que tão bem nos acolheram em Braço do Norte; e por fim - o sempre empolgado com nossas aventuras, o nosso motorista amigo: Sr. Mazolla - que além de nos levar, fez a gentileza de ainda voltar para nos buscar... e, feliz da vida.

Regozijem-se (agora em 1080p):

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Comentários
Dom, 26 de maio de 2013
escrito por: Clebson
Pedalo muito só mais a vontade de um pedal assim é grande. Muito bom parabéns!
Seg, 27 de maio de 2013
escrito por: Eleonesio Diomar Leitzke
Muito bom o relato......ainda precisa sair aquele pedal conjunto! Mandem ver para sair a próxima trip. Abraços.
Seg, 27 de maio de 2013
escrito por: Vanderléia
Agora sim... vídeo ficou muito legal!!!
Qua, 29 de maio de 2013
escrito por: Jeferson Gaivota
Maravilha o que vcs fizeram. Parabéns, viagem linda. Um grande abraço...
Qua, 29 de maio de 2013
escrito por: Arlíntone Matêus
É bem cansativo, mas depois da viagem findada e ver as fotos, da uma sensação de rejuvenescimento,ai só pensamos no proximo.
Qui, 30 de maio de 2013
escrito por: carlos antunes andrade
parabens pela cicloviagem
Seg, 10 de junho de 2013
escrito por: Adair José Orth
Muito bacana o trajeto,linda paisagem.
Parabéns!
Qua, 17 de julho de 2013
escrito por: rubevaldo alves amaral
meus Caros, achei a historia muito pitoresca, com um texto bem articulado, perpassando entre o cômico e o trágico, pedalo com frequencia temos um grupos (Poções-bike-estrada) e conseguir compreender todas as aflições, pricipalmente a parte do motoqueiro!.
Sex, 11 de outubro de 2013
escrito por: Priscila 'Guiga'
Eu não sei que tantas subidas vocês enfrentam, porque no vídeo não tinha ninguém pedalando "de fato" - isso significa que tinha muita descida no caminho. Pela lógica, teve subida também, e pelo meu raciocínio se vocês não filmaram as subidas é porque subiram empurrando as magrelas. rsrs
Brincadeira, muchachos. O vídeo ficou muito legal e parabéns pela trilha sonora! :D
Então vocês curtiram as GoPro? Bom saber.
Abração!!
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