Ter, 06 de outubro de 2015
Circuito Vale Europeu de cicloturismo - erste tag
Escrito por: Rodrigo Martins
   

O Circuito Vale Europeu foi desenvolvido especialmente para os venturosos cicloturistas, assim como sua versão doppelgänger desmontada, os infaustos mochileiros - que possuem uma variação menor do trajeto, embora passando também pelos mesmos municípios. Criado em meados de 2006 com pompas de ter sido o primeiro roteiro do Brasil planejado para ser percorrido de bicicleta (ou “de a pé”, conforme o seu nível de perturbação), o “Circuito de Cicloturismo do Vale Europeu Catarinense” – como foi inicialmente batizado -, vem ganhando notoriedade com o crescimento do turismo de aventura. Com início e término na cidade de Timbó (Vale do Itajaí, quarenta e tantas mil cabeças pensantes e dista 170 quilômetros de Florianópolis), o roteiro perfaz um total de três centenas de quilômetros que cruza os municípios de Rio dos Cedros, Pomerode, Indaial, Ascurra, Apiúna (trecho opcional), Rodeio, Doutor Pedrinho e Benedito Novo – todos com heranças requintadas em suas raízes europeias. O trajeto prioriza as estradinhas de chão com vias preferenciais para as Tobatas e você só se depara com o gentil asfalto nos perímetros urbanos, geralmente após ser maltratado por algum trecho nos desengraçados paralelepípedos. O clima é bipolar e oscilará sempre entre muito quente e muito frio – independente da época do ano, dependendo apenas de o quanto de morro você já subiu. O CVE foi planejado para ser feito em sete dias, embora os três desorientados plebeus que finalmente resolveram se aventurar por aquelas bandas tenham cismado em rodá-lo em apenas quatro. Por quinze pila de dinheiro brasileiro você recebe um kit de sobrevivência extremamente caprichado, contendo um livrinho (uma espécie de guia detalhado com dicas voltadas aos não iniciados, mapas e planilhas com um festival de setas, descrição de cada trecho com distâncias e altimetrias, telefones dos serviços essenciais de cada município e até uma engraçada classificação de grau de dificuldade do trajeto que assusta mais do que ajuda); um pomposo mapa com todo o circuito bem detalhado mostrando os principais pontos de visitação de cada localidade; e a credencial/passaporte – cujo objetivo é preencher os quadradinhos vazios com os carimbos de cada localidade trilhada para que ao término do roteiro, o desarranjado cicloaventureiro tenha direito ao seu merecido certificado de conclusão do circuito. Uma troca de gentilezas entre o nosso famigerado site e o elegante Timbó Park Hotel permitiu que nossos carros pernoitassem na sua bem cuidada garagem durante nossa jornada por terras europeias-tupiniquins e após entupirmos os bandulhos no caprichado refeitório do hotel, finalmente iniciamos a rodagem de nossas estimadas bicicletas pelo famoso circuito, já passado das nove e tanto da manhã e devidamente atrasados. Como sempre.

Dia 1) Timbó, Rio dos Cedros, Pomerode e Indaial - trechos equivalentes aos dias 1 e 2 do guia de cicloturismo do circuito.

Muito de início, numa parada providencial no primeiro mercadinho que avistamos para nos prover de alguma coisa a mais que o necessário (entenda assim: doces, chocolates e afins), casualmente nos deparamos com o simpático senhor Oilson, uma das figuras idealizadoras do circuito. Enrugou a testa quando falamos de nossas intenções matreiras de tentar cruzar o trajeto em dois pares de dias e numa discreta olhada no seu relógio, deixou transparecer o quão atrasados (e ferrados) nós estávamos. Sugeriu um início alternativo, com paisagens mais bonitas e tal, ganhando nossa total atenção quando enfatizou que pelo novo riscado haveria menos morro para subir. Ao longo dos anos, o circuito sofreu algumas alterações em seu traçado original e em alguns pontos percebemos que há mais do que uma opção para ser seguida. Essas mudanças de trajeto sempre deixam o GPS emburrado e contrariar a neurastênica engenhoca intergaláctica sem um humilde aviso prévio - é incomodação na certa. Naquele instante nos foi dado um singelo conselho que seguimos até o último metro de nossa inusitada cicloviagem: - sigam sempre as setas amarelas!

Até então não havia chovido e os primeiros pingos só caíram horas adiante. Seu Antônio era o mais entusiasmado e estreando em viagens mais longas, pedalava sorridente... embora ainda inconformado com o peso de seu alforje. Em Rio dos Cedros carimbamos o primeiro quadradinho do passaporte, gerando uma infantil alegria que se tornou compulsiva no decorrer da viagem, pois completar o álbum acabou virando uma divertida meta. Apesar do GPS ligado, a diversão maior era pedalar procurando as tais setas amarelas pintadas pelo caminho. Perto de Pomerode subimos exageradamente e ainda tivemos que puxar as capas de chuva, o que nos fez suar um bocado. A longa e eletrizante descida nos fez chegar bem acordados para o almoço no aconchegante restaurante da Malwee. Como já passava das 14h, almoçamos apenas nós e os garçons. A alegria da barrigada foi a quase extinta Pepsi de 1 litro em garrafa de vidro, que entrou nas nossas carcaças como o elixir que precisávamos, já que ainda faltava uma longa beiradinha pela frente.

Pomerode é uma cidadezinha que encanta pela sua beleza e tranquilidade - e a vontade nossa era de ficar por ali mesmo, de férias coletiva até a próxima Festa Pomerana (uma espécie de Oktoberfest melhorada) em janeiro do próximo ano, tomando vários pifões na Shornstein e indo brincar de Indiana Jones no zoo de lá. Conhecida pela alcunha de “a cidade mais alemã do Brasil”, ouvir conversas em pomerano (pommersch, dialeto do norte alemão) não é algo difícil de presenciar. Da mini Germânia para frente, subir foi uma constante e paramos somente mais perto de escurecer. Estarrados ao meio-fio no intuito de aliviar os maltratados compassos, aproveitamos para comer os nossos últimos recursos: sanduíches doados gentilmente pelas simpáticas moças do hotel, docinhos de amendoim e suco de laranja. Junto com a noite veio uma gelada garoa que nos acompanhou sempre dali em diante. Uma infinidade de sapinhos, rãs, pererecas e outras pequenas monstruosidades saltitavam pelo caminho enquanto apertávamos o pedal noite adentro guiados pelos potentes feixes de luz dos faróis Jedi. O cansaço havia batido fazia algum tempo e tudo que pensávamos naquele instante era no aconchegante quarto seco do hotel.

Chegamos em Indaial um pouco antes das 20h, bastante cansados e deveras encharcados. Um simples e rápido check-in e já estávamos liberados para seguir até os nossos aposentos e se enfiar embaixo dos chuveiros quentes. O hotel era bom demais, algo que não esperávamos já que o valor da diária não era alto. Certamente o melhor que já ficamos por essa faixa de preço (70 pila por cocuruto). No boteco ao lado, o X-salada não era dos melhores e para piorar escancararam na TV um sertanejo chato pra caçamba, e antes que os melosos choramingos me fizessem vomitar o que estava comendo sem muito entusiasmo – subimos aos quartos para mentalizar as setas amarelas do dia que estava por vir. Penso que antes das 22h todas as três crianças já estavam hibernando. Porém, antes de desmaiar no que parecia ser a melhor cama do mundo, Zumbis do Espaço no fonezinho de ouvido para limpar da mente aquela choradeira descornada dos infernos...

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Comentários
Ter, 06 de outubro de 2015
escrito por: Eleonésio Diomar Leitzke
Show meus amigos, como sempre, um relato inspirador. Nas nefastas subidas do Vale do Selke, vcs passaram a menos de 20kms da minha casa. Aquela é minha região de treino. Pena que não consegui acompanhar os amigos nesse dia. Aguardamos o relato do próximo dia. Um abração ciclodemente.
Ter, 06 de outubro de 2015
escrito por: Trilheiros do Sertão MTB (Sandro Freire)
Parabéns a Dupla! muito boa essa aventura,realmente é visto a satisfação em um tour de cicloturismo como esse...
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