Qua, 28 de outubro de 2015
Circuito Vale Europeu de cicloturismo - secondo giorno
Escrito por: Rodrigo Martins
   

Dormia bem demais até acordar com um desorientado galináceo com complexo de soprano que resolveu azucrinar o arrabalde com sua cantoria madrugadora e assim que consegui retornar ao mundo de Morfeu – o celular e seu irritante despertador me chamaram de volta para o infeliz habitat dos vivos, não me restando outra alternativa senão assumir minha forma zumbi. O bom café da manhã foi tomado antes de o sino tocar sete vezes e o forévis doendo incomodava menos que a preocupante chuva que parecia debochar de nós, caindo aos montes lá fora. A inquietude do trio era facilmente perceptível no quase desolado semblante de quem já conhece os contratempos de se iniciar o dia pedalando num exaltado aguaceiro. Trocamos nossos caraminguás por água, chocolate e suco de laranja, mas não sem antes enfrentar uma longa e entediante fila no vagaroso caixa do supermercado. Fazia frio e não demorou para puxarmos as vestimentas dos tempus hibernus de nossos ensopados alforjes enquanto escoávamos nossas emporcalhadas bicicletas por uma longa e enlameada reta, vez ou outra se enveredando morro acima – o que acabava ajudando a esquentar nossas gélidas carcaças.

Dia 2) Indaial, Ascurra, Rodeio e Doutor Pedrinho – trechos equivalentes aos dias 3 e 4 do guia de cicloturismo do circuito.

Perdemos um precioso tanto de tempo para encontrar um local para carimbar os nossos quase imaculados passaportes. Com o comércio quase todo fechado e praticamente sem nenhuma alma perambulando pelas encharcadas calçadas do vistoso centrinho do que dizem ser a cidade mais simpática do Vale Europeu, nos obrigamos a recorrer via telefone ao SADC (Serviço de Atendimento aos Dementes Cicloaventureiros) solicitando informações de onde diabos ficam as bodegas oficiais de carimbagem. Embora bastante prestativos no atendimento e aparentando estarem tão ou mais perdidos do que nós, as simpáticas atendentes do “Vale das Águas Regional Tourist Consortium” não conseguiram de imediato nos atender e acabamos fechando a primeira coluna de carimbinhos na relojoaria local de Ascurra, apenas para marcar registro.

Com o status de ser uma das cidades mais italianas do Brasil, aportamos em Rodeio já próximo da metade do dia e pensando muito no que iríamos comer. Com um franzino sol soprando timidamente um pouco de calor aos três tietes do Aquaman, almoçamos muito bem num pequeno restaurante de comida caseira que ficava nos arredores do sopé do que viria ser a maior subida dessa cicloviagem. Rumo a parte alta do Circuito, pedalamos por oito quilômetros bastante morro acima cruzando a tal da picol paradis (pequeno paraíso, no dialeto trentino), que consiste numa bela estradinha de chão rodeada por uma infinidade de hortênsias e cercada por 64 estátuas brancas de anjos dispostas ao longo de boa parte do trajeto. Lá em riba, depois de penar um monte para vencer a exagerada subida, na divisa com Benedito Novo, encontra-se a maior tirolesa das américas com mais de dois quilômetros de extensão aonde perturbados do país inteiro se aventuram por lá. Com um pouco mais de tempo de sobra e dois dedinhos de Velho Barreiro para criar coragem, talvez até teríamos nos abalançado por lá.

O arquivo do GPS vez ou outra diferia das setas amarelas, aquelas mesmas que divertidamente tentávamos seguir desde o início da brincadeira - o que invariavelmente nos deixava um pouco confusos. Ainda de tarde, fomos surpreendidos por um sinistro nevoeiro que se formou muito rapidamente. A densa névoa não nos permitia enxergar algo muito mais além do que os nossos próprios narizes e ainda trouxe junto aquele castigante frio que havíamos esquecido lá embaixo. O sibilar do vento por entre os casebres abandonados assombrava a paisagem e a densa bruma ajudava a criar uma atmosfera tensa e nada agradável. Nesse ponto da cicloviagem os três amedrontados caboclos aceleraram o que podiam, sempre com um olho na estrada e o outro na floresta. A descida decepcionou, pois foi muito desproporcional ao tanto que subimos e enquanto finalmente cruzávamos o Alto Benedito, a insistente chuva apertou de vez – nos obrigando a trocar o pacato e enlameado caminho para seguir paralelamente pelo movimentado e desagradável asfalto. Não demorou para nos depararmos com outra longa e desgastante subida, desta vez agravada por um frio que beirava o insuportável e com muitos carros raspando as nossas regeladas orelhas. Naquele instante, desenvolver guelras era só uma questão de tempo e a trinca de pseudociclistas mutantes aquáticos sentiu um pouco de vontade de chorar quando descobriu que mesmo já em terras predinhenses, ainda faltava quase uma dezena de quilômetros até a nossa estalagem. Somente após o longo e muito merecido banho quente é que voltamos a nos sentir humanos novamente e após uma rápida videoconferência com o nosso comparsa Fernando que ficou em casa se esbaldando no sofá – descemos até a lanchonete e devoramos o já habitual X-Salada, desta vez com o adendo de 300 gramas de batata frita por plebeu, o suficiente para estufar demais os nossos felizes bandulhos.

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Comentários
Qui, 12 de novembro de 2015
escrito por: Márcio J Spies
Que belas fotos ;) Abç
Dom, 10 de abril de 2016
escrito por: Eleonésio Diomar Leitzke
Vcs tem algum acordo com São Peddro????
Chuva em quase todas as fotos....
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