Qui, 10 de dezembro de 2015
Circuito Vale Europeu de cicloturismo - terzo giorno
Escrito por: Rodrigo Martins
   

Numa rápida googleada de manhã cedo, entre um pão de trigo e outro durante o sonolento desjejum, descobrimos que o sugestivo nome da cidade (o tal “Doutor Pedrinho”) é uma singela homenagem ao pai do então governador de Santa Catarina – isso no final da década de 40, aonde nenhum de nós era nascido, nem mesmo a banda... -, Aderbal Ramos da Silva... e quem apostou numa entidade extraterrestre com propriedades divinas e dons curativos, teve que pagar o Chokito de sobremesa. Nossa rouparia passou a noite se alongando no varal e de seco mesmo, somente as sapatilhas que adormeceram em frente ao truculento ventilador com motor de Tobata que fazia o piso do quartinho estremecer durante a silenciosa madrugada pedrinhense. A terceira parte da nossa ensopada jornada começou bem cedo, não muito depois do chuvoso alvorecer e bastou rodar os primeiros míseros metros para despencar o maior pé d’água, nos fazendo cruzar a bela e pacata cidadezinha do médio vale do Itajaí praticamente sem avistar nenhuma alma terráquea. Além da forte chuva, o exagerado frio também preocupava e o semblante desolado do trio presepeiro não era algo muito animador. Sabíamos que a etapa era longa e o enlameado e pegajoso chão não nos permitia uma pedalada mais dinâmica, vez ou outra patinando para conseguirmos sair do lugar. Com suas cinquenta e tantas primaveras, Toninho apresentava sinais de cansaço e desistir era uma opção que já não era mais considerada inaceitável, embora os nossos orgulhos não permitissem nenhum comentário que apontassem para esse sentido naquele momento. Esbaforidos e de testas franzidas, seguíamos em silêncio - concentrados apenas em vencer o quanto antes as longas subidas da exaustiva manhã.

Dia 3) Doutor Pedrinho e Rio dos Cedros – trechos equivalentes aos dias 5 e 6 do guia de cicloturismo do circuito.

A chuva era tanta que pedalar deixou de ser algo divertido e tudo que pensávamos naquele instante era nos abrigar em algum local seco para podermos esquentar um pouco nossas tremulantes e judiadas carcaças. Com as engrenagens totalmente encardidas de lama e fazendo ruídos desagradavelmente preocupantes, o ritmo diminuiu ainda mais e o desânimo tomou conta das três apáticas criaturas que viam na cama de suas casas um sonho distante demais para se sentirem esperançosos com qualquer tipo de situação.

Lá pelas tantas, ao cruzarmos um pequeno vilarejo estilo Hobbit clássico, nos deparamos com um agraciado restaurante de comida caseira que parecia ter sido materializado pelos deuses do além, inclusive com um ostentoso forno a lenha postado bem no centro do salão. Com sinais claros de hipotermia, tiritava os dentes sem parar e sequer consegui lavar o rosto no banheiro de tão gelada que a água parecia estar. A irritação pelo sofrimento excessivo era generalizada e levou algum tempo até ordenarmos nossos pensamentos novamente e a paz voltou apenas após trocarmos de roupa e sentarmos na mesa mais próxima ao fogaréu e seu providencial calor esfumaçado. O quadro cafona de um cavalo com trejeitos homossexuais nos fazia rir enquanto comíamos bolinho de pirão de feijão e mais tudo aquilo quente que a caprichada bodega poderia nos oferecer - ao mesmo tempo em que discutíamos e analisávamos nossa desconfortável situação. Além do cansaço acumulado, o solo encharcado, as bicicletas com rangidos deveras preocupantes e o tempo horroroso que insistia em se sentir feio - faltava ainda um longo pedaço de estrada bastante morro acima para perfazermos. Aparentemente o tal restaurantezinho é uma espécie de oásis dos ciclistas que frequentemente “se perdem” pela região e além de nós, outros tantos devotos do Aquaman montados em suas encardidas bicicletas aproveitavam para se esquentar e estufar a pança por lá. Marcelo era o mais inquieto e a meia distância o observávamos levar uma longa prosa com o dono do bar, gesticulando muito e apontando para todas as direções. Instantes depois, tentando esconder um sorriso de satisfação, ele aparece com uns grotescos rabiscos riscados num amassado guardanapo jurando ser um mapa. Aparentemente o aprendiz de Daniel Azulay lhe fez um gatafunho detalhado de um caminho alternativo em que além de abreviar o trajeto em algo perto de duas dezenas de quilômetros, ainda desviava das longas e morosas subidas que estavam por vir. Relutei um pouco em aceitar a tramoia, afinal de contas a ideia sempre foi completar o circuito em sua totalidade e naquele momento chispávamos dos bons conselhos do GPS amigo. De quando em quando avistávamos novas flechas amarelas, nos fazendo entender que aquele caminho alternativo também fazia parte do circuito e afastando assim aquele desagradável sentimento de frustração.

Entretidos em desviar das poças de nosso caminho metralhado, mal percebemos a transição entre o fim da chuva e os primeiros lampejos de sol que timidamente transpassavam a infinidade de pinheiros que nos ladeava já há algum tempo. Com um pessimismo para o tal dia já um tanto enraizado nos até então desanimados aventureiros, chegar cedo na comunidade de Palmeiras foi um feitio que nos causou alguma surpresa, pois sequer eram quatro da tarde. Ver o sol brilhando nunca nos fez tão felizes e nada custou zanzar de um lado para o outro até encontrarmos a nossa singela hospedaria.

Nos asilamos numa belíssima casa aonde o senhorio e sua família viviam na parte mais perto do céu e sublocavam o andar de baixo para nós, os mendigos ciclistas que finalmente tiveram seu merecido dia de príncipe. Um quarto para cada infeliz, sala, cozinha conjugada, dois banheiros, geladeira, churrasqueira, fogão a lenha e uma vista indescritível para a represa. Bastante acostumados a receberem os perturbados e afamados cicloturistas, de imediato ajeitaram uma dessas lavadoras de alta pressão, aonde pudemos antes de tudo, dar um bom trato nas nossas queridas e maltratadas bicicletas. Enquanto o senhor Otávio quase botava fogo na casa tentando acender o fogão a lenha, dei uma considerável pernada até o mercadinho em busca de refrigerante e chocolate. Após a boa janta que nos foi servida, matamos o tempo jogando conversa fora e assistindo um xarope futebol na televisão. Assim que anoiteceu, o caprichado lugar virou uma favela europeia com varais esticados por toda sala e nossas fedegosas sapatilhas secando de forma requintada embaixo do fogão. Enquanto Marcelo e Seu Antônio se entretinham com os seus celulares penando para funcionar com uma internet um tanto capenga, me encaminhei para a cama e fui ler meu gibizinho do Hulk até o sono chegar.

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Comentários
Qui, 10 de dezembro de 2015
escrito por: Márcio J Spies
Muito bom. Belas imagens...!
Qui, 10 de dezembro de 2015
escrito por: João Doggett
Bom demais! Fotos e narrativa engraçada empolgam a leitura. Melhor até que Turma da Mônica. Continuem assim e no aguardo pelo último capítulo.
Abraços do amigo João.
Sáb, 12 de dezembro de 2015
escrito por: Jedson Eleuterio
Como sempre, muito bom. Este é um roteiro que pretendo fazer. Parabéns.
Qui, 28 de janeiro de 2016
escrito por: Julia
Olá,

Vi que no terceiro dia voce foi até Rio dos Cedros.
No quarto dia voce seguiu até Timbó ?

Voce conseguiu completar em 4 dias?

Abraços.
Dom, 10 de abril de 2016
escrito por: Eleonésio Diomar Leitzke
O mais bonito trecho do circuito, a parte daquele bosque, a casinha verde e a passagem por dentro do rio é fantástica, saida diretamente de algum devaneio do além mundo...
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