Dom, 31 de janeiro de 2016
Circuito Vale Europeu de cicloturismo - última jornada
Escrito por: Rodrigo Martins
   

Ignorando tudo aquilo que as pessoas mais requintadas costumam se referir como “bons modos”, subimos no atropelo os poucos degraus que nos separava do oloroso café da manhã e nos atiramos na caprichada mesa tão simpaticamente servida na restrita sacada da ala noroeste da pomposa morada. Conforme o usual, nos portamos de maneira muito pouco adequada, tais quais imperativos javalis e rapidamente devoramos tudo aquilo que nos foi oferecido, mal notando a vista panorâmica de todo o paradisíaco lago Rio Bonito que se exibia logo atrás sequer sendo notado naquele instante pelo populacho esfomeado. Pouco demorou para que arrotos de satisfação fossem ouvidos a uma distância digna de orgulho para os mais nobres suínos, embora eructar suco de laranja sabor natural de Tang não tenha a mesma magnitude que os refrigerantes de Cola. Com a adiantada nas tralhas na noite anterior imposta pelo impiedoso General Machado, conseguimos nos aprontar cedo e alguns poucos minutos após os oito cacarejos, o animado triunvirato iniciou o seu derradeiro dia se despedindo da simpática família que tão bem nos recebeu. Não havia sol e a discreta névoa nos fez optar pela moda inverno em nossas vestimentas de estouro. Algumas pessimistas almas que cruzamos logo no início do derradeiro dia nos alertaram de uma maneira bastante enfática que uma mega-subida estava por vir e ao folhear o manualzinho de cicloturismo do circuito, conferimos um pouco agradável “Pero hay uma última subida larga y mui escarpada (quizás la mas furte de todo el Circuito)” que deixou os três caboclos pedalantes encasquetados. Passeamos por quase três dezenas de quilômetros rodando contentes demais pela boa noite de sono e também pela (finalmente) não existência de chuva, embora um pouco inquietos com a tal morreba que demorava em surgir. Mais adiante, no sopé do malfadado morro, olhando com uma certa desconfiança para a íngreme subida optamos por ancorar e antecipar o lanchinho açucarado da manhã para só então encarar o dito cujo.

Dia 4) Rio dos Cedros, Benedito Novo e Timbó – trechos equivalentes ao dia 7 do guia de cicloturismo do circuito.

A subida não é longa (algo próximo de dois quilômetros), mas é deveras inclinada e nos fez patinar em alguns trechos, posto que tenha sido bem mais tranquila do que havia sido profetizada por tantos outros infaustos terráqueos locais. Os primeiros raios de sol, ainda que tímidos e aparentemente relutando em aparecer, acabaram trazendo um pouco de calor e tão logo as mangas longas retornaram para o fundo dos alforjes. Seguiu-se então uma quase interminável descida que fez todo o cansaço acumulado dos sofridos últimos dias desaparecer por completo. Lá pelas tantas, nos deparamos com um pequeno grupo de ciclistas que seguiam em sentido contrário (blasfemando contra as sagradas setas amarelas!) e aparentavam estarem mais perdidos do que nós. Durante a divertida prosa descobrimos que a trupe é colega de estrada do Eleonésio, o louco-mor dos pedais. Propaga-se a lenda que ele tem a intensão de fazer todo o circuito em apenas um único dia, no melhor estilo Jack Bauer e suas perturbadas 24 Horas.

Perto da metade do dia já fazia bem mais calor do que aquilo que consideramos agradável e ao cruzarmos Benedito de Novo, nos atentamos para qualquer bodega aberta, pois sabia-se lá quando teríamos outra oportunidade de abastecer o bandulho novamente. A padaria local nos foi indicada pelo povo de sotaque engraçado com garantias de ser a única cozinha aberta naquele horário fantasmagórico de domingo à tarde. Nosso almoço se resumiu em pastel e salsicha recheada, tendo uma imitação de Cornetto (hecho en Indaial) como sobremesa. O trecho final foi um bocado chato, pois além de tostar o cocuruto, os xaropes paralelepípedos fizeram tremular nossas até então acalmadas almas e ainda sofremos com o incessante vento contra - com pompas de twister. O dia foi mais curto que o esperado e de restante foi apenas acompanhar os contornos do Rio Benedito - seguindo sempre as setas amarelas e trilhando por uma estradinha paralela a SC-477 até chegarmos no agitado trânsito de Timbó. Com os passaportes devidamente carimbados postos a mão, seguimos direto para o ponto final do Circuito – o restaurante e choperia Thapyoka, sito logo após atravessarmos o rio.

Extasiados por mais uma ciclo-conquista e ainda processando a marcante empreitada, empurramos lentamente nossas bicicletas cruzando todo o pátio do barzinho e seguindo em direção ao balcão a fim de retirar nossos tão merecidos certificados. Já dentro do caprichado restaurante, a simpática moça deu uma breve conferida na coleção de carimbinhos (com uma desconfiada bisolhada no timbre da relojoaria de Ascurra) e logo então carimbou, assinou e outorgou que os três molambos com pinta de cicloturistas completaram com maestria o “Circuito Vale Europeu de Cicloturismo”. Momento significativamente emocionante por todo o flashback gerado naquilo que pareceu ser muito mais do que apenas quatro dias e entre sorrisos e abraços de satisfação, demos por encerrado a parte bacana da aventura – seguindo agora para o hotel, a fim de um bom banho, para então embarcarmos nossas bikes e seguirmos viagem de carro até a capital catarinense - já matutando quando e como faremos o Circuito das Araucárias...

Foram 265 quilômetros rodados em dois pares de dias, sem nenhum pneu furado e tampouco alguma queda. Cruzamos Timbó, Rio dos Cedros, Pomerode, Indaial, Ascurra, Rodeio, Doutor Pedrinho e Benedito Novo em meados de um chuvoso setembro do ano que se passou. Agradecimentos especiais - aos humanos de praxe: Dona Vanderleia Kist (mestre-cuca da homônima quitanda que fornece guloseimas a base de farináceos que muito satisfazem nossa gula); Dona Cléia Araújo do Timbó Park Hotel pelo apoio na logística de pernoite de nossos carros;  Senhor Beleza, vulgo Leandro do Beleza Bike, pelos bons serviços prestados na manutenção de nossas estimadas bicicletas; a toda diretoria da Pizza Bis (melhor pizzaria das galáxias, segundo dizem e assim concordamos) em nome de Dona Silvinha e Dona Ivete. Dispositivos de origem não humanos: nossas sofridas companheiras, as senhoras GT, Cannondale e Scott que aguentaram o tranco sem quase nunca reclamar; o geralmente neurastênico GPS que nos manteve aprumados sem desta vez ter nenhuma crise de existência; as duas gerações de Olympus que há quase uma década vem tirando belíssimas fotos sem nunca falhar. Animais e outras monstruosidades: O Incrível Hulk, meu desorientado rottweiler que possui simpatia pelo terror e que substitui com alegria o seu antecessor, Senhor Miyagi – ente querido que partiu do mundo terrestre há pouco tempo -, por não ter comido mais nenhum dos meus bonsais!

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Comentários
Ter, 02 de fevereiro de 2016
escrito por: silvano
Parabéns galera pedalar é tudo de bom....ficaram muito bonitas as fotos,abraço!
Dom, 10 de abril de 2016
escrito por: Eleonésio Diomar Leitzke
Muito obrigado por lembrarem desse humilde e combalido pseudo ciclista. Quem será que era essa trupe que vcs encontraram no caminho??
Quem sabe vcs não seriam os companheiros certos para o inusitado projeto???

Um forte abraço.;)
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