Qui, 01 de julho de 2010
Conhecendo melhor nossa "Santa & Bela Catarina" – a 2ª viagem... 6 de 9: É rolando no fundo do rio, que se lapidam os cascalhos...
Escrito por: Rodrigo Martins
   

A sorte favorece a mente preparada? Já acreditei nisso. De qualquer forma, se houvesse algum equilíbrio ponderado na minha mente ou de meus amigos, naturalmente não entraríamos nessa divertida, porém insana pedalada. Particularmente nesse dia, pensei mil vezes antes de levantar da cama. Criei coragem, sentei, suspirei, levantei, dei dois passos, me arrependi e... voltei para cama! Sem condições. Precisava dormir um pouco mais. Quando levantei e fui comer, levei um susto! Certamente Já vi funeral mais divertido que o nosso café. Fernando e Roberto eram duas carrancas nada simpáticas. Marcelo amanheceu ruim, com muita dor de garganta e assustava só de olhar para ele. Na rua, um aguaceiro atemorizante. Ouvi sussurros com a idéia de desistir, ou pelo menos passar o dia descansando no hotel e seguir viagem apenas no dia seguinte... Lembrei então dessa reflexiva sabedoria proverbial de porta de banheiro: “Fracassados se dividem em duas classes: aqueles que pensaram e nunca fizeram e aqueles que fizeram e nunca pensaram...”. Mesmo não fazendo muito sentido naquele momento, acredito ter captado a essência da coisa. Para entender é preciso pensar e me parece ser o pressuposto básico das longas pedaladas - justamente não pensar!

DIA 6 - DE BALNEÁRIO ARROIO DO SILVA AO FAROL DE SANTA MARTA, PASSANDO POR RINCÃO E JAGUARUNA E NÃO CHEGANDO NUNCA...

Esse sexto dia foi a nossa verdadeira provação. Saímos tarde demais, somente após o meio-dia. Marcelo, que tem complexo de horário - queixou-se desde o inicio. Roberto ainda sonhava em retornar para o hotel... Lamúrias a parte, seguimos rumo ao nosso austero destino.

Esse asfalto inicial foi um lampejo de alegria.

Assim que os pneus das bikes tocaram esse lamoso chão, quem não estava preocupado – ficou. Chuva, frio e vento. Cansados e com as bicicletas carregadas no solo fofo. Caiu demais o rendimento. Ficou pesado pedalar...

Travessia de balsa pelo Rio Araranguá... Detalhe interessante: de graça!

Aqui uma pequena mudança no trajeto que aumentou nossa apreensão. Segundo os pescadores videntes locais, a maré estava alta demais para se pedalar. Corríamos o risco de ir até um trecho e ter que voltar. Gentilmente nos indicaram um caminho alternativo, mais longo obviamente - o que atrasou ainda mais nossa pedalada. Esse trecho não estava mapeado no GPS, o que dificultou ainda mais. Frio, chuva, vento, cansados e com fome... E agora, perdidos!

Não entendemos o porquê desse trecho asfaltado no meio do nada, mas gostamos! De verdade...

Alguns aclives e declives. Roberto ainda traumatizado com as suas sucessivas quedas, irritantemente descia todos os morros a 10 km/h, freando inclusive nas retas... desde sempre. Até então ninguém reclamou, mas nesse dia o tempo era valioso.

Raramente a chuva dava uma trégua. “Macia é a língua e fica, duro são os dentes e caem”. Falei para não reclamar do sol...

Sabíamos da proximidade do horário de comer pelo nível de irritação nossa. Nada a vista por um bom tempo. Pedalamos e pedalamos e pedalamos e nada... Nenhuma birosca decente aberta para se comer. Então vai numa indecente mesmo. A primeira e única pocilga que apareceu - encaramos, com um pouco de medo, confesso. Era estilo “pague para entrar e reze para sair” e descrevo com o maior prazer o nosso sugestivo almoço: mortadela picada em cubos com molho de pimenta de procedência duvidosa, banana, Elma Chips diversos, rosca com gosto de areia, pipoca Bilú (aquela de isopor...)... E no final o Choquito para tirar a ânsia de vômito.

Era o que tinha para o momento. Para descontrair, a piadinha sem graça do mês, talvez do ano...
Rodrigo para o Fernando:
- Quer um Choquito?
– Sim, claro – respondeu Fernando, sorridente.
– Põe o dedito na tomadita...

Quase no final da tarde, chegamos ao Rincão já com os ânimos um pouco renovados. Paramos para descansar e comprar suprimentos, por que a expectativa não era das mais animadoras. Estávamos muito longe ainda e por um bom trecho não passaríamos por nenhuma localidade habitada por humanos.

Nesse trecho furou mais um pneu, o que atrasou ainda mais a empreitada...

A noite caiu... Marcelo começou a piorar da garganta e seu lado Smurf Ranzinza aflorou. A bicicleta do Roberto começou a dar sinais que não chegaria ao fim. As pastilhas de freio do Rodrigo foram para o espaço, parecendo um carro de boi e completamente sem freio. A chuva apertou, o frio aumentou consideravelmente. Paramos numa igrejinha para fugir da chuva e fazer um lanche que acabaria por ser nossa janta. Pão doce, queijo, presunto... no melhor estilo pedreiro. Por sorte encontramos uma vendinha aberta e a Pepsi além de parecer ser mais gostosa do que nunca, inspirou outro momento único de sabedoria Yodiana:

Algumas pessoas preferem olhar para trás ao invés de olharem para frente, porque é mais fácil lembrar de onde se esteve do que pensar para onde se vai

De novo! Segue a dica - o segredo é não pensar!...

Pedalamos muito depois disso. À medida que a estrada se aproximava do mar, o vento aumentava e sempre soprando contra. Pedalamos em cima de muita areia de praia molhada, o que dificultou demais. Em algum momento bateu o desespero, certamente... Muito escuro, o som imponente do mar assustava e nessas alturas, ser bom já não era mais suficiente. O momento foi de total superação. O pior falido do mundo é aquele que perdeu o entusiasmo e em nenhum momento deixamos nossa paixão pela idéia ruir completamente. Tivemos muitas dificuldades nesse dia e buscamos força, sabe-se lá aonde. A essas alturas, nem sentíamos mais as pernas e a mente se abstraiu completamente. E, de alguma forma estranha, passamos a curtir o momento novamente. Pedalávamos em silêncio para poupar energia. Marcelo, mesmo doente, puxou o ritmo e quando chegamos em Jaguaruna, reavivamos a sensação de pedalar no asfalto. E, sem toda aquela ventosidade contra - novamente sorrimos e seguimos o mais rápidos que podíamos. Estávamos longe ainda, exaustos e já passava das 23h, porém satisfeitos com nós mesmos. A chegada no farol foi algo muito além de nossas expectativas. Talvez uma das melhores sensações que já tivemos em cima de uma bike... Pedalar numa escuridão total, apenas com os faróis das bicicletas, cercado pelo mar, numa interminável reta de estrada de chão e guiados pela poderosa luz intermitente do farol. Nem Gothan City possuía um desses! Foi um momento indescritível e inesquecível. Acho que falo por todos... Se houve um dia especial pedalando – esse foi o tal. Chegamos no hotel depois da meia-noite, totalmente desolados, mas agora de alguma forma aliviados. Doze horas de estrada em intermináveis 112 km com tudo que se imagina contra: chuva, vento, frio, lama, areia, escuridão total e as bikes nas piores condições possíveis. Para piorar, o hotel não era dos melhores. Mas só percebemos no dia seguinte. Roberto mal conseguia andar. Não jantamos, não havia o que comer. Por sorte, conseguimos alguns Choquitos (em respeito ao bom senso, não repetirei a piada...) e algumas bolachas salgadas que disfarçou a fome até o dia seguinte. Marcelo abriu nossa porta e jogou alguma coisa em cima da cama. Fez cara feia, virou as costas, bateu a porta e saiu. O clima não estava bom, então o melhor era dormir. Deitado na cama, a sensação é que ainda estava pedalando. Loucos e cansados? Melhor continuar não pensando.

Sexta etapa cumprida, extremamente cansados e irritados e... melhor não pensar!

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Comentários
Qui, 01 de julho de 2010
escrito por: Angélica
Nossa, muito legal o site, entrei só para dar uma olhadinha e acabei lendo tudo heheh
Parabéns para os corajosos!!
Qui, 01 de julho de 2010
escrito por: Waldson
Amigos, que dia, hein! Francamente,dia de chuva, acho que eu ficaria deitadão no hotel, nem sairia. Já o fiz em outras vezes, ah ah ah!
Parabéns pela garra!

Realmente tem horas que é melhor não pensar!...

Abraços do Antigão!
Sex, 02 de julho de 2010
escrito por: Vivi
Estou adorando ler as histórias. Parabéns pela força e coragem!!!

Nada como um dia após o outro. ;-)
Sex, 02 de julho de 2010
escrito por: kadu
Cara... esse é meu maior sonho,
poder sair por aí sem rumo certo, andar por tudo de bike.

Tenho uma boa bike, mas não tenho condições de fazer isso por enquanto.

Vcs estão de parabéns por tudo isso.

Adorei o site =D
Qua, 07 de julho de 2010
escrito por: Elton
Chuva...e frio? por curiosidade, coloque também as temperaturas...fica mais emocionante ler hehehe...
já passou mesmo, agora é curtir e comentar a viagem!
abraços
Qui, 15 de julho de 2010
escrito por: carlos bike
As fotos ficaram blz, agora pedalar com chuva e frio não deve ser mole ainda + em estrada de chão
e parabéns pela cicloviagem ....
Sex, 01 de abril de 2011
escrito por: Cíntia Oliveira
Parabens pela a garra de voce!
Amando ler a viagem de voces!õ/
Sáb, 07 de maio de 2011
escrito por: Mauricio
Sensacional, como eu ri.... hahahah
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