Dom, 19 de junho de 2011
Conhecendo melhor nossa "Santa & Bela Catarina" – a 3ª viagem... 5 de 9: quase ilhados e sem Chokito!
Escrito por: Rodrigo Martins
   

A formidável sensação de uma noite bem dormida foi bem cedo arruinada pela precoce agitação do Marcelo. Recém a noite tinha deixado de existir e sua inquietude matinal já nos aborrecia. Contrariado por aparentemente termos ignorado sua já costumeira movimentação barulhenta, numa ousada e pouco educada atitude – ele simplesmente abre a janela do nosso quarto-caverna e passa a rir deliberadamente. Mentalizando alguns xingamentos e sem me dar por vencido, enrolei minha cabeça no macio travesseiro e me enfiei ainda mais edredom adentro na esperança de conseguir dormir um pouco mais. Foi quando surpreendentemente ele conseguiu minha atenção: - Olhem amigos... o sol! Desconfiado, resolvi sair da toca e abrir os olhos. Fernando já estava ao pé da janela, hipnotizado com um céu totalmente desanuviado e mais límpido que qualquer um de nossos mais recorrentes sonhos pudesse imaginar. Levantei num só pulo e fui contemplar o tão raro momento. Descemos sorridentes para o café da manhã e conversamos da forma mais descontraída possível. Mesmo jurando nunca mais comer cachorro-quente pela manhã e tão cedo, ainda assim o fizemos. Hoje valia tudo – pensamos. Afinal de contas... não chovia. Subimos para os quartos sem pressa alguma e lentamente ajeitamos as coisas, animados com o prenúncio de um dia bom. Deu tempo inclusive de assistir um pouco de TV. Cansados ainda do dia anterior, enrolamos um pouco e somente por volta das 10h demos continuidade a nossa sina. Perplexamente nos deparamos com um momento ilógico e desconexo... Quanto tempo se passou entre o café e agora? – pensamos simultaneamente atordoados. Um dia horroroso se fazia. Nuvens negras ao extremo nos encaravam e pareciam debochar de nossa aflição. Ao primeiro ciclo de pedalada, caiu o maior temporal e - extremamente decepcionados -, demos reinício a nossa desventura, aceitando cabisbaixos o redundante fado...

DIA 5 – DE JOINVILLE À SÃO FRANCISCO DO SUL, PASSANDO POR ITAPOÁ E ENGANADOS POR UM INÍCIO DE DIA BONITO...

Desprovidos de bicicletas anfíbios, entramos num Super para fazer o rancho do dia e esperar a tormenta aliviar. Enquanto comprávamos utensílios para uma duradoura sobrevivência estrada afora, sorrateiramente Roberto comprava um infindável número de salgadinhos Elma Chips. Na dúvida entre esperar um pouco mais ou seguir viagem – resolvemos encarar a forte chuva. O trecho que seguimos era uma grande reta asfaltada e sem grande movimentação de carros, pelo menos naquele momento. A “Manchester Catarinense” - como é conhecida Joinville, consiste na maior cidade do estado com mais de 500 mil habitantes. É uma cidade diferente. Bem organizada, cresceu para o lado e não para cima. Avistam-se poucos arranha-céus, mas em contra partida leva-se uma eternidade para cruzar a cidade (pelo menos pedalando...). Terra das Flores e dos Príncipes, da antiga FENACHOPP, do maior Festival de Dança do mundo e para o nosso deleite – a Cidade das Bicicletas! A média é de uma bicicleta para cada dois habitantes. Quase 8% dos deslocamentos dentro da cidade são feitos de bike, enquanto que a média nacional é inferior a 2%. A cidade possui 67 km de ciclovias com mais outros 83 km inclusos em projetos futuros. Além de conter o único museu de bicicletas de toda a América do Sul, com um impressionante acervo de mais de 16 mil peças...

http://www.museudabicicleta.com.br/

Terminada a reta, contornamos o estranho aeroporto (onde a sinaleira fecha para os carros e abre para os aviões...), atravessamos o Rio Palmital de balsa e já em terras francisquenses, subimos para o norte em direção ao Paraná.

Nesse momento voltou a chover bastante e de forma incessante. Chão pesado, muito exaustivo de se pedalar. O cansaço acusou bem mais cedo do que nos outros dias.

Lugarejo dos mais ermos que já pedalamos... Sem a mínima chance de encontrar algo aberto que vendesse qualquer coisa parecida com comida, tapeávamos a fome mendigando goiaba pelo caminho. Roberto, um pouco mais prevenido e sem o mínimo espírito coletivo, mastigava irritantemente seus salgadinhos celestiais não oferecendo aos companheiros menos favorecidos.

Muito além do que gostaríamos - mais perto do horário da janta do que do almoço –, encontramos o primeiro estabelecimento gastronômico aberto. Desnecessário comentar o nível... Roberto se enturmou com umas criaturas Troll e baseado nas bobagens que ouviu, cismou que havíamos pego o caminho errado. Algumas pessoas não entendem (inclui-se aí, o Roberto) que estamos viajando, passeando... e, nem sempre o caminho mais curto é o planejado. Já sem muita paciência para ouvir as lamúrias do Roberto, aceleramos um pouco e deixamos que o Marcelo se entendesse com a criatura amante de lengalengas... Afinal de contas, “parentes que se entendam!”.

Acima, o lendário “Jirico”... Desses, fazia um bom tempo que não avistávamos.

Antes de chegar na parte asfaltada da SC-415 (que segue até Garuva pela esquerda ou até o Paraná pelo sentido contrário), pegamos uma estradinha de chão em sentido leste e iniciamos o trajeto de volta, descendo pela parte rural do município de Itapoá. Encontramos muitas dificuldades nesse trecho: estrada ruim com muita lama em algumas partes, a chuva não dando trégua e as bicicletas em péssimo estado - digno inclusive de sentir pena das pobres coitadas.

Ao anoitecer, já muito cansados - iniciamos uma longa subida por uma inesperada serrinha. Cada um no seu ritmo e pedalando separados, nos reencontramos muito tempo depois no topo da montanha. Chovia moderadamente, mas a essas alturas isso já não fazia diferença alguma. Descansamos um pouco para dar a vez a várias motocas trilheiras que abusavam da imprudência, cruzando nosso caminho em alta velocidade e com os faróis apagados numa escuridão já consolidada. O trecho a seguir parecia perigoso e combinamos de descer um pouco mais devagar... Ignoramos a razão e descemos o mais rápido possível, contrariando o nosso próprio bom senso, apenas curtindo a aventura na mais escura das noites. A adrenalina do momento fez muito bem para as nossas já cansadas almas e chegamos revigorados lá embaixo, para ainda encarar o platô final. Seguimos por mais quatro eternos quilômetros até chegar à Vila da Glória, lá por volta das 19h. Pasmos e boquiabertos, quase choramos quando avistamos uma cruel e singela placa indicando que o último barco fez a travessia da Baía da Babitonga as 16h... Ou seja, só estávamos 3 horas atrasados. Cansados demais para entrar em desespero, fomos jantar - ou melhor dizendo... almoçar! Pelo bem ou pelo mal, saímos perguntando para tudo e todos e a resposta padrão não era nada animadora. Aparentemente estávamos ilhados. Dormir ao relento era uma preocupação extra, já que Roberto diz ter o hábito de dormir pelado e nenhum de nós (a gente, não a banda...) tinha curiosidade de vivenciar tamanha bizarrice. Quando a desesperança começou a tomar conta de nosso abalado otimismo, eis que surge a grande figura do dia: Henrique! Grande ser humano e proprietário do melhor restaurante de frutos do mar do mundo!* 

*Restaurante e Petisqueira TRAPICHE. Estrada Geral Lindolfo de F. Ledoux, 42. Vila da Glória. Fone: (47) 3442-2627 

Um telefonema aqui, outro ali... e, muito pouco tempo depois, comovido com o nosso desalento – ele dá o afortunado veredicto: - Consegui alguém para levar vocês para o outro lado!... Outro lado? – pensei. Ops... vi isso em Poltergeist e não gostei. Olhei para a gigantesca e escura Baía e senti calafrios... Mas era isso ou dormir na rua com o Roberto. Sem pestanejar, entramos correndo e sorrindo no barco!, felizes como nunca.

Aliviados por finalmente termos aprumado novamente nosso destino, fizemos uma longa e divertida travessia pela fantasmagórica baía. Navegamos deslumbrados com o momento, curtindo a estranha sensação, contemplando a bruxuleante paisagem e sem nunca deixar de agradecer a boa sorte que sempre nos acompanhou... Roberto pelo seu mau humor crônico - foi punido por Poseidon ao cruzar suas águas sagradas e teve seu pneu furado pelo tridente mágico.

Enquanto trocávamos o pneu da ilustre figura, por telefone dávamos sinal de vida aos nossos entes queridos. Uma breve voltinha pelo centrinho histórico de São Francisco do Sul e seguimos rumo ao sonhado hotel... A má notícia? Ainda faltavam 20 km para se pedalar. Aceleramos o pedal o máximo que podíamos. Uma bela sprintada pela SC-301 noite adentro... Só nós, o asfalto e alguns carros tirando fino de nossas geladas orelhas... Por volta das 23h30, contemplando a maresia e pedalando a beira-mar, admirando o saudoso barulho das ondas... Finalmente findamos o dia. Um merecido banho e uma curta caminhada até a lanchonete mais próxima. Forramos o estômago com o mais horroroso X-salada e voltamos decepcionados por não termos encontrado um mísero Chokito sequer de sobremesa... Anotar na agenda: próxima viagem, trazer Chokito de casa!

Quinta etapa cumprida... Ensopados, desolados e sem Chokito – porém, felizes por termos atravessado para o outro lado...

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Comentários
Dom, 19 de junho de 2011
escrito por: João Doggett
Sensacional. Galera, muito bom mesmo. fico vidrado aqui lendo as historinhas de vocês. Hahahaha, essa do Poltergeist foi demais. Tenho medo de palhaço até hoje por causa desse filme.Espero que o sol apareça e que o Roberto continue melhorando. Da próxima vez, roubem os pingo d'ouro dele!! Xarope do caramba...
Grande abraço gurizada.
João.
Dom, 19 de junho de 2011
escrito por: Edson luiz da Costa
Galera...imagino a dificuldade que voces tiveram na nossa região, fiquei feliz que voces conseguiram se livrar das armadilhas chuvosas..aqui chamamos joinville carinhosamente de chuvile..parabéns á todos pela heróica pedalada.

abraços
Seg, 20 de junho de 2011
escrito por: Kemp - Geotrilhos.blogspot.com
Ui ui... Tanta chuva!
Força aí pessoal.
Fico a torcer por voçês aqui do outro lado do Oceano. ;)
Continuem com a jornada!

Boas pedaladas.
Seg, 20 de junho de 2011
escrito por: Jedson
Chuva em Joinville? Galera parabéns pelo pedal. Muito boa a vingança do tridente do Poseidon. Pô Roberto vê se divide o Pingo de Ouro, deixou as crianças com vontade.
Abraços.
www.jedbike.blogspot.com
Qua, 29 de junho de 2011
escrito por: Neto Berka
Esta lançado a campanha....Eu quero ver pedaladas.com.br no SPORTV......( depois negociamos a comissao...kkkk )
Qua, 06 de julho de 2011
escrito por: Henrique
Ola amigos bom que chegaram no seu destino,só tem um porem aqui no Restaurante e Petisqueira Trapiche alem de Frutos do Mar temos as porções Um exelente lanche e por sinal tbm o Chokito, bem amigos agradeço em nome de todos aqui do Restaurante pelo elogio a minha pessoa e ao comentar que é o melhor do mundo. Espero velos em breve e se precisar estamos sempre dispostos a ajudar pois um local qque se vive do turismo temos que ter exelencia no atendimento a vcs. espero de coração que vcs tenham gostado pois a Vila da Gloria è um paraiso mas muito melhor com sol. abç Henrique
Sex, 08 de julho de 2011
escrito por: Waldson (Antigão)
Que dia, hein!? Pedalar com chuva não é para qualquer um! Mas, para um grupo guerreiro como vocês doeu mais a falta do chokito do que a chuva gelada e persistente.
Parabéns Srs. Guerreiros!

Grande abraço.
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