Qui, 13 de fevereiro de 2014
Conhecendo melhor nossa “Santa & Bela Catarina” – a 5ª viagem... 2 de 7: desventuras abaixo de zero
Escrito por: Rodrigo Martins
   

A julgar pelo tamanho da poça d’água que ilhava a minha cama, se eu pedisse um eventual socorro para a Liga da Justiça certamente eles me mandariam o sem graça do Aquaman. Fernando ainda ressonava quando resolvi me levantar e ao longe eu conseguia escutar a passada delicada do nosso madrugador e inquieto amigo Marcelo. Todavia, antes de pisar no chão, balbuciei alguns palavrões na esperança de espantar possíveis criaturas não humanas daquele recinto sinistro. Uma olhada mais atenta e pude perceber que o quarto nem era tão ruim assim (tentando ser otimista desde cedo). No desjejum, enquanto nos servíamos - Roberto ainda se queixava do choque que levou na noite anterior. Mesa bastante sortida, embora tudo com gosto de muitos dias atrás. Comi apenas o cavaquinho e pedi uma laranjinha Água da Serra para acompanhar. Olhávamos apreensivos pela porta, pois além do vento forte, fazia muito frio de manhã cedo. A bizarra estrutura do hotel era tão precária que sequer conseguimos levar isso tudo a sério, ademais o que importa de verdade é o tratamento e no que tange a isso – não temos do que reclamar. Reconhecemos o esforço de todo o pessoal que se empenha horrores para manter aquele alojamento de zumbis funcionando no meio do nada. Fazia bastante tempo que o galo histérico silenciou quando iniciamos a segunda etapa da curiosa jornada e seguimos direto para uma lojinha de conveniência de um posto de gasolina localizado pouco mais a frente. Além da água, compramos um monte de porcariazinhas calóricas para evitar qualquer outro tipo de míngua, vide o maltrato do dia anterior. Marcelo demonstrava muita preocupação com as mórbidas nuvens que se formavam detrás de nós e Roberto, que deve ter lido algum livro de autoajuda da previsão do tempo na madrugada anterior, insistia em dizer que dali para frente não mais choveria. – Nunca mais? - alguém perguntou. E antes que ele desse a resposta em forma de palestra motivacional, aceleramos o pedal por uma longa e bela estradinha de chão. Entre pingos e algumas frestas de sol - pedalamos por quase dez quilômetros até reencontrar o asfalto mais além, morro acima.

DIA 2) DE CAPÃO ALTO À ANITA GARIBALDI  – PASSANDO POR CAMPO BELO DO SUL E CONGELANDO EM CERRO NEGRO...

Capão Alto é um pequeno município com pouco mais de três mil habitantes que se escondem quase que totalmente na zona rural. Foi o maior distrito de Lages até se emancipar em meados dos anos 90. Agricultura e pecuária formam a base de sua economia (maçã, milho, feijão, soja, hortaliças, gado, cavaquinho, aves e suínos), possuindo uma grande área de reflorestamento que fornece matéria prima para a indústria madeireira e papeleira de toda a região sul. Não encontramos quase ninguém pelo caminho e tampouco foi fácil encontrar um local para almoçar.

Ainda pedalávamos pelos arredores de Capão Alto quando repentinamente desabou um exagerado toró. Pingos do tamanho de uma barata gorda causaram o maior atropelo e seguimos desorientados até avistarmos um local decente para se abrigar. Alojados na varanda de uma bodega abandonada qualquer, rodeados por generosos e malcheirosos trôços gigantes de cavalo e com os olhos arregalados de preocupação, esperamos a chuva aliviar um pouco para atravessarmos a rua e nos enfornar num caprichado mercadinho sito bem ao lado. Fazia frio demais e entramos com os dentes batendo aos montes. De imediato pedimos café e Nescau muito quente, no nível de pelar a língua. Enquanto estendíamos as capas de chuva, percebíamos o olhar nada discreto dos curiosos locais. Não havia almoço e a única opção era estufar as traumatizadas panças com pastel, misto quente e outras iguarias do tipo. Na rua, aos poucos o aguaceiro ganhava a forma de uma inofensiva garoa enquanto jogávamos conversa fora com o simpático e nada otimista proprietário do armazém. Segundo a desagradável figura, estávamos num dos locais que mais venta em todo o Brasil. Testas enrugadas e olhares fixos em nossa direção indicavam que os funcionários estavam apenas esperando a plebe esfomeada sair para fechar o estabelecimento. Momentaneamente esquecemos que em lugarejos assim, geralmente tudo fecha ao meio-dia... inclusive restaurantes.

O dia era longo e preocupava. Marcelo não aparentava estar bem e por várias vezes sugeriu pegarmos uma carona no retão que se formava. Ignoramos de imediato a absurda ideia e seguimos cabisbaixos pedalando - procurando não pensar muito nessa possibilidade. Resignado, preferiu pedalar um pouco mais afastado, o que acabou criando um certo desconforto com o restante do grupelho. Só ali que comecei a perceber que os colegas de viagem não se prepararam fisicamente de forma adequada para o tal evento e isso começou a me aborrecer. Seguíamos devagar e o vento contra era tanto que tínhamos a necessidade de pedalar mesmo morro abaixo – o que acabou desgastando ainda mais a cambaleada trupe. A estrada ruim também não ajudava em nada e chegamos em Campo Belo do Sul bastante atrasados. O frio era absurdo e em alguns pontos nos deparamos com chuva congelada. Fizemos um belo lanche e o proprietário bacana da lanchonete nos deu duas mãos cheias de Mandolate. – toma, energia para ajudar vocês nessa jornada maluca! Deveras emocionado o grupo ficou com rara gentileza.

Enquanto havia sol, a temperatura rondava os 3°. Nuvens muito escuras colocavam pressão e aceleramos o pedal - aproveitando a melhora da estrada e o alívio daquela irritante ventania. Em Cerro Negro, fizemos a última parada - e inclusive conversamos com a prefeita. Paramos simplesmente para colocar todas as peças de roupa que podíamos. Fora a capa de chuva, pelo menos mais cinco camisas de manga comprida. O frio era praticamente insuportável e assim que caiu a noite penamos horrores. As extremidades dos dedos das mãos doíam demais e era difícil inclusive respirar. O pulmão ardia e por várias vezes paramos para bater o pé no chão e voltar a ter algum tipo de sensibilidade. A possibilidade de hipotermia e/ou alguma gangrena assolavam os nossos pensamentos que naquele momento eram para lá de pessimistas. A situação era preocupante, pois não tínhamos estrutura física nem emocional para pedalar por tanto tempo assim em temperaturas tão baixas. Após as 19h o frio estava em torno de 4° negativos e com a sensação térmica de muito menos. Bastante apreensivos, batíamos o queixo incessantemente e pedalamos por horas sem parar e mesmo assim não havia forma de conseguir esquentar o sofrido esqueleto. 

Chegamos em Anita Garibaldi próximo das 21h, exaustos e semi-congelados! Fomos assolados por um frio que jamais imaginei sentir. Levei vários minutos para conseguir parar de tremer e mal conseguia ficar em pé, sendo que tive que tomar banho sentado, numa água quase fervendo. O corpo todo doía e enquanto a pizza não chegava, tomei um antitérmico e me enrolei em várias cobertas. A pousada era muito boa e a pizza melhor ainda. Conversamos um bocado sobre a extravagante aventura do dia, cada um dando a sua versão sobre a inusitada experiência. Houve momentos em que ficamos muito assustados, mas a satisfação de completar o desafio exigido fez tudo parecer uma divertida brincadeira. Ficamos acelerados demais e o sono demorou a vir. No singular quarto, tudo muito ajeitado e limpo. Frigobar cheio e TV funcionando e ainda com as fronhas exalando um agradável aroma perfumado. Nada de goteira, portas para o além e fedentina de Elma Chips. Merecidamente, estávamos no paraíso desta vez. Uma bela noite de sono estava por vir.

Segunda etapa concluída num frio fora de época e fora do comum. Mais de 90 km rodados, sendo boa parte deles - abaixo de zero. Exauridos ao extremo e com os nossos pais preocupados demais com essa aparente absurda jornada.

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Comentários
Qui, 13 de fevereiro de 2014
escrito por: Eleonesio Diomar Leitzke
Parabéns por novamente nos brindarem com mais um divertido episódio das desventuras ciclisticas. Belas fotos.
Aguardamos o próximo dia.
Qui, 13 de fevereiro de 2014
escrito por: dorgivan santos
COMO SEMPRE UMA DIVERTIDA LEITURA, E COM SOFRIMENTO QUE SOMENTE NÓS CICLISTAS SABEBOS COMO É, VALEU GALERA..
Qui, 13 de fevereiro de 2014
escrito por: Waldson - Antigão cicloturista.
E turminha boa de pedal! Parabéns a toda equipe! Eu ainda vou descobrir esse segredo na escolha dos caminhos tão belos que vocês fazem. É demais!

Grande abraço do Antigão!
Qui, 13 de fevereiro de 2014
escrito por: Éder Strutz
Parabéns pessoal.... como sempre um excelente relato de cada pedal!!! as fotos ficaram show. Abraços pessoal e fico no aguardo pelo terceiro dia.
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