Qui, 07 de agosto de 2014
Dia um da trinca de Páscoa: Laguna/Braço do Norte
Escrito por: Rodrigo Martins
   

Balancei a cabeça com preocupação quando percebi que passavam das 5h e eu ainda não havia dormido praticamente nada. Tomei meia xícara de Nescau quente no melhor estilo pelador de língua apenas para não sair em jejum. Bocejava de sono quando ouvi a discreta buzinada da sempre pontual diligência que acabara de chegar. Chutei minhas tralhas para frente de casa e torci para que o Senhor Miyagi – meu amado rottweiler, ainda vivo na época -, não mijasse em cima. Enquanto o Marcelo pendurava a bicicleta no transcaloi, eu repassava mentalmente o carrego - preocupado se não havia esquecido nada importante, ao mesmo tempo em que cumprimentava o sempre bem humorado Sr. Zulmar, cacique da família Machado e nosso motorista amigo. Já na BR, com poucos minutos de viagem encaramos a temida longa fila do Morro dos Cavalos. Preocupou de início, mas os bons ventos sopraram a nosso favor e o trânsito fluiu de maneira aceitável sem sequer nos incomodar. Do carro, enviávamos WhatsApp malcriados de autoajuda para os dois dissidentes pançudos que ficaram em casa novamente. Não demoramos muito para chegar em Laguna e mesmo com outros trechos enfileirados conseguimos fazer a viagem em menos de uma hora e meia. Começamos a parte bacana da brincadeira por volta das 7h30, com o tempo se comportando estranhamente. Ainda não dava para saber se faria frio ou calor ou tampouco se iria chover. Sem correr riscos, a capa de chuva estava bem posicionada na parte de cima da sempre elegante pochete, junto com o Tic Tac sabor menta (para tirar o sono, basta misturar com Fanta Uva!, dizem os sábios...). Iniciamos nossa quinta viagem de Páscoa fazendo um longo tour pela bela cidade histórica de Laguna. Começamos costeando toda a praia do Mar Grosso e paramos para bisbilhotar os pescadores artesanais interagindo com os botos – que naquele momento não pareciam estarem muito inspirados e deram um isolante geral nos folgados terráqueos.

Um pouco contrariados pela iminente preguiça, mas motivados pela curiosa visão do ponto mais alto da cidade, seguimos arriba até o cimo do Morro da Glória - aonde se situa um dos principais cartões postais da cidade. A imagem de Nossa Senhora com seus quase 50 pés de altura foi inaugurada em meados de 1953 e proporciona uma abençoada visão panorâmica dos dois lados da cidade.

Já no centrinho histórico, bebericamos na tal fonte da Carioca – que desde 1863 enfeitiça os turistas incrédulos. Quem dela bebe, à Laguna sempre volta – diz o dito. E quem somos nós para dizer que não? Embora eu acredite que a cachaça bebida nos tempos de moço, no outrora melhor carnaval do mundo, é quem tenha motivado inúmeros retornos a essa cidade de vocação festeira. Mais adiante, cruzamos algumas ruelas e passamos pela Casa da Anita (a Garibaldi...). Fechada, deu para saber apenas que para entrar é cobrado 2,5 pila de dinheiro brasileiro (quase o preço de um Chicabon). Por fim, paramos no Marco de Tordesilhas aonde fingimos aprender qualquer coisa sobre la na longínqua oitava série - época essa que o Spectremen era o cabeça-mor da casta com superpoderes. - Transforma-te imediatamente e destrói o monstro! A cidade corre grande perigo... – diziam os saudosos Dominantes. Enfim, o tal monumento ao marco histórico é deveras chinfrim e mal vale a parada.

Continuamos nossa pequena jornada ciclística agora pedalando pelo asfalto quente do acostamento da BR-101. A construção da nova ponte sobre o canal das Laranjeiras que liga Laguna a Pescaria Brava impressiona um bocado e hipnotiza os motoristas curiosos que desaceleram para observar a mega estrutura que está sendo erguida (quase três quilômetros de extensão) gerando uma longa fila sem sentido. Giramos no sentido contrário por mais de 15 km de uma interminável fileira que se estendia bem mais além - até isolarmos o drama alheio de quem preferiu viajar de carro e entrarmos numa estradinha de chão que seguia em direção ao município de Armazém. Um belo portão de ferro nos fez voltar para o asfalto e seguimos então em direção as cercanias perdidas de Capivari de Baixo, improvisando um pequeno trecho. No meio do nada encontramos uma bela padaria e paramos para lanchar. Matamos o tempo sentados a sombra e chupando um merecido picolé com o dinheiro economizado do museu da Garibaldi, esperando sem muito otimismo que o forte calor desse uma trégua. Mais a frente a garupa da minha bicicleta quebrou e tudo foi ao chão. Velhos oriundos da geração MacGyver, sabemos que são poucas as coisas nessa vida que não se consegue consertar com o combo: rabo de rato + super bonder + silver tape. Paramos novamente apenas em Gravatal - desesperadamente sedentos por qualquer coisa gelada e uma latinha de Pepsi evaporou-se em dois goles. Aproveitamos a rara bodega aberta para estocar água gelada nas nossas garrafinhas, pois penamos de sede por um bocado de tempo.

Estávamos muito perto de Braço do Norte, menos de 15 km talvez, bastava seguir reto. Vacilamos ao considerar a possibilidade de surrupiar boa parte do que foi combinado, mas a consciência de quem aparentemente se diverte ao sofrer nos fez manter o cronograma e dali para frente, basicamente só fizemos uma coisa: subir! No caminho encontramos outro simpático forasteiro de bike com o mesmo nível de perturbação nosso e trocamos uma bela prosa enquanto pedalávamos em direção ao além. Claro, que mais próximo da cidade houve aquela descidinha animadora cheio de curvas fechadas com inclinações perigosas somente para não chegarmos na janta deprimidos e ainda conseguimos aportar na casa da minha avó antes mesmo do anoitecer, embora cansados como poucas vezes ficamos.

A tradicional janta de Páscoa foi regada ao mais gostoso dos camarões e os esfomeados glutões estufaram as panças desprovidos de qualquer tipo de vergonha. Tinha até picolé de sobremesa e só não arrotamos na frente dos parentes por que gostamos de fingir que somos educados. Contagiados por uma preguiça sem precedentes, nem nos animamos em dar uma volta pela cidade e seguimos o instinto de apenas se jogar no sofá. Assistimos um pouco de televisão, mas sem TV a cabo, tivemos que zapear por uma dúzia de canais horrorosos da parabólica - o que nos fez desistir rapidamente e se arrastar mais cedo para a cama, inspirados pelo sugestivo silêncio característico do interior. Primeiro dia de três... quase 90 km rodados em pouco mais de seis horas de pedal. Um pouco cansados e com os fórevis tomando forma quadrada.

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Comentários
Qui, 07 de agosto de 2014
escrito por: Dorgivan Santos
como sempre uma bela cicloviagem e relatos. formidáveis. Parabéns Bikers!
Qui, 07 de agosto de 2014
escrito por: Eleonésio
Buenas meus amigos.
Como sempre divertido e inspirado.
Preciso fazer um curso de redação com o ciclístico redator para também aprender a colocar o Sr Myagi, Mac Gyver e Spectreman com os Dominantes na mesma história.
Um abração amigos e até o próximo.
Qui, 07 de agosto de 2014
escrito por: Cesar Rocha
Foi bom ver este relato, pois em setembro deverei sair daqui de Brasilia com destino a Laguna. O marco de Tordesilhas será o ponto final da viagem.

Dependendo das pernas e do coração, depois de passar por Blumenau irei pelo interior (serras), passando por Braço do Norte e Tubarão. Mas com maiores possibilidades de ir pelo litoral, é esperar pra ver.

Teu site tem sido referência para mim, desde que firmei essa rota, Tordesilhas.

Abraços e boas pedaladas.
Sex, 08 de agosto de 2014
escrito por: Jedson Eleutério
Sempre me divirto com esses relatos cheios de humor. Parabéns.
Sáb, 09 de agosto de 2014
escrito por: Waldson Gutierres dos Santos
Como sói acontecer, uma bela cicloviagem, um excelente relato ilustrado por belas fotos. Seus ciclopasseios são inspiradores, parabéns amigos!
Abraços do véio!
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