Qua, 30 de abril de 2014
O primeiro dia da revigorante pedalada de Carnaval
Escrito por: Rodrigo Martins
   

Finalmente meus ouvidos irão ter o descanso que merecem e toda aquela porcaria sonora que infernalmente é invocada nessa época vai passar bem longe, pois nesse carnaval eu só vou ouvir RAMONES! – pensava entusiasmado enquanto arrumava as tralhas para mais uma cicloviagem ao passo que meu iPod ia sendo carregado com toda a defeituosa discografia dos reis do underground: Hey Ho, let’s Go! Tudo conferido - bastava apenas àquela soneca básica rejuvenescedora madrugada adentro, enquanto o carreto não chegava. Mal deu tempo de fechar os olhos e as duas criaturas indiferentes ao bom sono já estavam no portão de casa azucrinando quem justamente não queria estar acordado. Nem eram sete horas e eu já estava enclausurado no carro seguindo viagem em direção a serra novamente. Após alguns dias de muito calor, 23° caía bem para o momento e agradava no geral. O tom era alegre, apesar do indigesto horário e conversávamos descontraidamente dando boas risadas de qualquer coisa que avistávamos pelo caminho. Bastante movimento na estrada e assim que entramos na 282, encaramos uma discreta fila sem ao menos se sentir incomodados. Uma centena de quilômetros separa as nossas casas do ponto de partida no Morro da Boa Vista em Rancho Queimado. Lá em cima ventava às pampas e fazia frio demais para a época do ano. Já ancorados e de casacos puxados, montávamos a parafernália toda enquanto fazíamos um lanche básico com Pepsi gelada na temperatura ambiente. Roberto não pôde ir e ficou na labuta se lamentando, enquanto Fernando, machucado, ficou em casa jogado no sofá entregue às lamúrias. Antes de iniciar a divertida brincadeira, naturalmente telefonamos para as duas pestes apenas pelo simples prazer de incomodar, pois sabíamos o quanto as duas crianças gostariam de estarem presentes. Enfim, dado o recado, seguimos pedal estrada abaixo enquanto o pai do Marcelo se dirigia com o carro pelo caminho contrário rumo à longínqua capital.

Sito a 1200 metros acima da morada de Namor, o Morro da Boa Vista consiste num dos locais mais belos pelo qual já pedalamos e sempre que possível – retornamos para contemplar a pitoresca paisagem da montanha e o belo cenário rural que o entorna. De lá, seguimos por uma longa estrada de chão batido que cruza eternamente uma localidade conhecida como Mato Francês. Perto do meio-dia esquentou demais e paramos num sombreiro para descansar o juízo. Nenhuma birosca aberta na redondeza, mas aflitos não ficamos, pois desta vez carregamos a lancheira e fome não passamos! Como dizem por lá, “Un homme averti en vaut deux”. Enquanto esperávamos o sol baixar, um sujeito de naipe engraçado do nada pergunta: - estão indo pra onde, ô? Apontamos discretamente para o norte e ele complementou: - vão para Taquaras? Assentimos que sim muito preguiçosamente com as cabeças e aproveitamos para perguntar se estávamos muito longe. – Dez quilômetros e faço de a pé em uma hora e seis minutos! Fitamos o sujeito e olhamos para a sete léguas invocada dele e rimos muito sem sequer duvidar do feitio.

Lá pelas tantas o GPS apagou, causando uma momentânea aflição. Já pensou se esse birrento dispositivo pifa? - indaguei preocupado para o parceiro de bucha que preferiu nem pensar na possibilidade. Estávamos no meio do nada sem sequer saber para qual direção seguir. Por sorte, foi apenas um mau contato da pilha. Um pouco mais além, Marcelo resvalou numa fresta e deu uma bela barrigada no chão pedregoso da região no início de uma longa descida. Nada quebrado, apenas raladuras e choramingos. Entendido o aviso, descemos com mais cautela a partir de então.

O GPS não estava nos seus melhores momentos e indicou uma estrada que terminou numa imponente cerca. Isso nunca é bom, a gente sabe. Mas voltar um trecho pedalado não agrada e não demorou muito para passarmos as bicicletas por cima do portão e descaradamente seguimos viagem invadindo a propriedade de um infeliz qualquer. De início foi tranquilo, mas gradativamente a estrada foi perdendo o seu contorno e foi ganhando preocupantes aspectos de trilha. Guiados pelo apito xarope do GPS, seguimos bastante desconfiados. Muito tempo atrás, na época dos Hobbits talvez, por ali, já passou uma estrada, mas há muito tempo humanos ciclistas não rodavam por aquela cercania e isso é fato. Precisava de muita boa vontade para acreditar que pedalávamos por uma estrada. As vezes melhorava e as vezes piorava, mas continuávamos seguindo em frente, embora perdendo cada vez mais o otimismo.

Quando aquilo que simpaticamente nos referíamos como "estrada" terminou na beirada de um rio, uma singela depressão bateu ao considerarmos a possibilidade de termos que voltar e subir tudo aquilo que por muito tempo descemos. Pensando na festa que perdia, conclui que o meu lugar não era ali e naquele instante procurava entender como conseguiram me convencer de pedalar no carnaval. Eu deveria estar enchendo o caneco, essa era a lógica! Mas naquele momento eu já sabia do infame alarde desse tal Lepo Lepo e pedi perdão para o Santo Joey por pensamentos tão impuros. Gabba Gabba Hey!, para o axé e derivados, amém. 

Penamos bastante para cruzar o isolado faxinal e apavoramos quando um touro anabolizado a poucos cascos de nós deu uma bufada meio atravessada. Chegamos em Taquaras um pouco depois das 16h e paramos num boteco para tomar Pureza e descansar as canelas. Tentamos conversar com alguns nativos, mas nada entendemos. Emborcar Velho Barreiro a tarde toda parece estimular um novo dialeto nos jogadores de dominó da região. Pedalamos mais um tanto, agora morro acima e chegamos um pouco antes de anoitecer no centrinho da pacata Rancho Queimado. Assim que instalados no hotel, saímos para jantar e fomos no combo básico: X-Egg (com ovo) + batata frita + Pepsi. Marcelo que anda numa deprimente vibração mais natural, pediu suco de laranja. Cidade vazia e sem faísca alguma de festa, apenas um pastor pouco inspirado pregando uma missa para algumas dezenas de fiéis bem em frente à janela de nosso quarto. Por que não estou surpreso com isso? Fazia 12° e sequer tínhamos roupas apropriadas para invernada fora de época. Dormimos cedo, embora o culto barulhento tenha nos acordado meia-dúzia de vezes até às três da manhã quando o silêncio finalmente predominou.

Primeiro dia de três: Saindo do Morro da Boa Vista de manhã cedo, pedalando um pequeno trecho pela BR-282 e seguindo pela estrada geral do Mato Francês. Entramos na estrada do Fachinal do Aldo e seguimos até Taquaras, passando pelo Morro Chato até chegar em Rancho Queimado no início da noite. Purificando os ouvidos com: Loco Live + Rocket to Russia + Pleasant Dreams;

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Comentários
Qui, 01 de maio de 2014
escrito por: Eleonésio Diomar Leitzke
Novamente divertido o relato. O nobre redator sempre consegue nos fazer sentir dentro do passeio, acompanhando vocês. E que venha o próximo dia.
Qui, 01 de maio de 2014
escrito por: cleomar
muito bacana galera.abraço
Qui, 01 de maio de 2014
escrito por: Valeria
Muito legal galera pra lá de simpáticas como sempre nos surpreendendo e obrigado pelo ramones amo de paixão...Kkkk...bikebj a todos valeu..!!!!!!!
Qui, 01 de maio de 2014
escrito por: patricia cristina lima da costa
Oi pessoal,gostei da viagens e as fotos,quanto a gps apagar por falta de bateria tem que ter um carregador para alimentar,eu tenho o meu.Não é barato,custa r$85,00,mas é muito bom.Não fico na mão por isso.Sei quem vende tambem.
Sex, 02 de maio de 2014
escrito por: dorgivan santos
Como sempre um show de cicloviagem e fotos belíssimas, relatos divertidos e eu como bom amante de cicloviagem fico aqui no nordeste lambendo uma rapadura, para ver sempre os próximos capítulos!! Valeu Riders
Sex, 02 de maio de 2014
escrito por: Waldson - Antigão cicloturista.
E mais uma vez a inveja sadia tomou conta do meu ser... Cada foto de tirar o fôlego!!!
Parabéns por esse dia de pedal! Que venham logo os demais dias!
Abraços e saúde aos parceiros que não puderam estar presentes!
Qui, 05 de março de 2015
escrito por: Waldson - Antigão Cicloturista
Olás meus nobres amigos!
Demorou um pouco, eu sei, mas reapareci. Graças a Deus a fase mais aguda dos problemas já passou e assim eu volto a me deliciar com esses relatos magníficos e belas e inspiradoras fotos!
Mas o Marcelo comprar um terreno tão pedregoso me intriga, hehehe!
Belo primeiro dia, não obstante pensei que vocês não encontrariam saída daquela estrada que mais parecia uma trilha de tatus.

Grande cicloabraço e vamos para o segundo dia.
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