Seg, 19 de maio de 2014
O segundo dia da preguiçosa pedalada de Carnaval
Escrito por: Rodrigo Martins
   

Tentar ser solidário com as neuras matinais do Marcelo é o mesmo que dar um carinhoso abraço na depressão. Sete e tanto da manhã e já estávamos sentados ao relento esperando a baiuca abrir para tomarmos o sagrado café da singela criatura. Por que esse infeliz não dorme? – pensava quase inconformado. Até tentei persuadi-lo a voltarmos para o quarto, dormir um tanto mais e descer somente mais perto do meio-dia – sendo que, obviamente, levei aquela ignorada clássica. Era domingo de carnaval e na certa o pessoal do refeitório sequer havia chegado da merecida vadiagem. Ainda com sono, pestanejava entediado enquanto o gélido ar coçava o meu avermelhado nariz ao passo que jogávamos conversa fora – ainda esperançoso que tão logo alguma boa alma desse o que comer para o metódico glutão. O fato de sermos os únicos hóspedes do simplório hotel não gerava uma expectativa muito boa e demorou um bocado até sermos servidos. Nisso, perdi quase duas horas de sono na espera de um modesto desjejum que só valeu pela Pureza gelada. Subimos para arrumar as tralhas e após ter tudo socado nos castigados alforjes, seguimos viagem aparentemente com tempo de sobra desta vez. Iniciamos o segundo dia bem lentamente, deixando a preguiça desapegar do nosso maltratado corpo no tempo dela. Fizemos uma breve parada na fábrica do idolatrado guaraná para reverenciar o precioso líquido de cor caramelo para logo então seguirmos caminho morro abaixo em direção à Angelina.

Descemos pelo asfalto em torno de meia-dúzia de quilômetros até que em algum momento entramos à direita numa estradinha de chão que o GPS marcava como “terceira linha”. A primeira impressão não foi boa e titubeamos ao considerar o tanto que teríamos que subir. Angelina era um pouco mais a frente e fomos tentados a passar direto e evitar qualquer esforço desnecessário. Sobe um pouco no início, mas no restante o padrão é colina abaixo. Estrada das mais bacanas e perfizemos uns divertidos oito quilômetros que fez valer a brincadeira.

Cruzamos o centrinho de Angelina por volta do meio-dia e logo estacionamos as bicicletas para podermos almoçar de forma decente: arroz, feijão, batata, macarrão, ovo frito e salada. Raras foram às vezes aonde pudemos comer tão bem nessas nossas cicloviagens por Santa Catarina afora. Fazia bastante calor e após estufar as panças, seguimos em ponto morto até a Congregação das Irmãs Franciscanas de São José – vulgo hotel das Freiras. Ficamos hospedados na Porciúncula, que imagino ser uma ala mais nova, aonde os quartos são muito mais caprichados – inclusive com sacada, perfeito para deixar as bicicletas descansando sem nos atrapalhar, embora não muito longe de nossos olhos, pois continuamos apaixonados por elas e a distância nos inquieta. Desmontamos os alforjes das crianças e seguimos para a segunda etapa, de barriga cheia e bem mais leve sem as pesadas bagagens.

Ao longo dos anos, já rodamos uma infinidade de vezes pela sempre bela região de Angelina e ainda assim continuamos a descobrir caminhos novos pelos quais ainda não passamos. Iniciamos o trecho inédito subindo pela estrada geral do Rio Bonito seguindo até o Alto do Garcia, aonde fomos parar no flanco inverso do Lago Ribeirão Garcia. A barragem da Usina Hidrelétrica do famoso Sargento foi fundada no início da década de sessenta e possui uma área alagada de 500.000 m². Espaço próprio para camping, pescaria e aterrissagem de ÓVNIS, além de uma bela e propícia sesta.

Motivados por uma preguiça que custava a desapegar, ao cruzar a barragem confabulamos mais uma tentativa de extorquir outro considerável trecho. Envergonhados pela insistente mandriice, seguimos o combinado e pedalamos conforme o planejado, embora bocejando a beça. Serpenteamos o rio Garcia até aonde foi possível, acompanhando-o por cerca de dez quilômetros pedalando numa exageradamente empoeirada estrada, até dobrarmos em sentido leste ao encontro da Rua Linha dos Chaves (isso, isso, isso!...) de onde iniciamos o retorno para a cidade, agora penando morro acima. Quando a fome bateu, dois simpáticos nativos que cruzaram o nosso caminho enquanto dávamos uma folga para os nossos compassos – nos gratificaram com uma porção de pêra recém colhida, animando o providencial descanso. Mais para o final da tarde esfriou bastante e de forma brusca, gerando uma sensação desconfortável com as camisas suadas e o peito gelado. Impecavelmente empoeirados, chegamos no hotel perto das 18h, um pouco antes de fazer-se noite e menos cansados do que imaginávamos – concluímos orgulhosos, de certa forma.

Jantamos às 19 horas e embora bastante mirrada (só tinha macarrão, feijão e lasanha), o gosto era bom demais e repetimos tanto quanto o tamanho de nossas barrigas nos permitiu. As simpáticas e animadas irmãs estavam organizando uma jogatina entre os ilustres hóspedes e convidaram toda a plebe presente para jogar canastra. Pensei comigo – aí já é demais! Domingo de carnaval, de noite, bico seco, dormindo num convento... e ainda ter que jogar baralho com um monte de freiras? Já fiquei deprimido por bem menos. Entediado e sem sono, saí para dar uma volta e comprar Pepsi para acompanhar o amendoim da madrugada. Marcelo - ainda com laços emocionais ligados ao preguiçoso dia -, preferiu ficar no quarto, então aproveitei e estiquei a pernada aproveitando para visitar a centenária gruta de Nossa Senhora de Lourdes, ficando contente e por vezes me pegando pensativo com o silencioso e reflexivo local. Mais tarde no quarto, ainda sem ter o que fazer, coloquei RAMONES no fone de ouvido e fui brincar de quebrar a cabeça com o maldito Cubo Mágico até o sono chegar – enquanto o amigo estarrado na cama ao lado brincava de zapear com os três canais existentes na minúscula TV – xingando sempre que podia a xaropeante programação de carnaval.

Segundo dia de três: Saindo da Capital Mundial da Pureza rumo à Angelina pelo asfalto, mas antes enveredando por belas estradinhas na cercania. Deixamos os alforjes no hotel e seguimos mais leves circulando o Lago Ribeirão Garcia até voltarmos para a cidade da Senhora Jolie novamente, sem antes subir horrores. Purificando o ouvido com: Twenty, twenty, twenty, four hours to go, i wanna be sedated... Nothing to do, nowhere to go, oh... I wanna be sedated”. GABBA GABBA HEY!

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Comentários
Ter, 20 de maio de 2014
escrito por: Eleonésio Diomar Leitzke
Um dia ainda aprendo a escrever como o notório redator que sacia a curiosidade dos desocupados do lado de cá.
Show as fotos, sou forçado a ir conhecer a Fábrica da Pureza, essa maldita me persegue, nos relatos de vocês e até em postos de gasolina já acho dela......

Um abraço e manda o próximo dia.
Qua, 21 de maio de 2014
escrito por: Éder Strutz
Belo relato pessoal... Realmente Angelina e as redondezas do município tem muito pra se explorar... Quando pensamos que já conhecemos o lugar!!! Tchan Tchan Tchan de repente la tem uma estradinha que não tínhamos dado conta e ela te leva a outra e assim por diante.

Parabéns por mais este pedal.
Qui, 22 de maio de 2014
escrito por: Alexandre
Também pedalei nessa região vale muito a pena.
Seg, 28 de julho de 2014
escrito por: Waldson Gutierres
Essas estradinhas são bucólicas demais! Parabéns rapazes! Agora que a poeira da doença está baixando por aqui, volto a ler belos relatos como esse, admirar lindas fotos e, se Deus quiser, em breve voltar aos saudosos pedais.
Grande cicloabraço!
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