Qui, 21 de fevereiro de 2013
Pedalada na Terra dos perdidos
Escrito por: Rodrigo Martins
   

Ainda era julho, quando desta inusitada pedalada. Cedo seguimos no intuito de aproveitar o raro final de semana com sol de um início de inverno bastante chuvoso. Tijucas é uma sossegada cidadezinha com cerca de 30 mil cabeças humanas caminhantes, situada às margens da BR-101, a meio caminho entre Florianópolis e Balneário Camboriú. O calor fora de época de fato empolgava, embora ao alvorecer tenha feito horrores de frio. O cerimonial de desmontar as bicicletas do transcaloi foi ao som dos dentes tiritando e um Nescau mega-quente teria caído muito bem naquele momento. A ideia era acelerar a brincadeira inicialmente a fim de esquentar as gélidas carcaças, mas a musculatura entrevada somada a uma deslocada estradinha estilo beira de praia - acabou por travar a nossa intenção. Com a estranha e pesada estrada aos poucos ganhando forma de normal e uma população canina exageradamente estressada e barulhenta colocando pressão na cola dos semiacordados pseudo-ciclistas, tão logo voltamos a um ritmo decente.

A carranca asada se exibindo em cima do poste não parecia ser um bom presságio. Nunca é. Desapegados a qualquer tipo de superstição, rimos do exótico ser e continuamos a nossa pequena jornada orientados pelo nem sempre estimado GPS – ente cibernético que possui uma vocação um tanto exagerada para ser um Zé-Graça completo.

Demorou, mas apareceu o vagaroso sol – que, apesar do atraso, veio em boa hora. À medida que nos afastávamos do litoral, a temperatura da bacana região caía desagradavelmente. Despreparados e usando um modelito “quase verão” de pernas de fora - a exceção do Marcelo, que sempre dentro da moda, procura seguir a tendência Tony Ramos anti-friaca com os seus pelosos membros inferiores -, encarangamos por um bom trecho. A singela pedalada foi muito boa até começarmos a subir.

Não havia subidas no trajeto traçado, eu tinha certeza disso. E, muito menos, estrada com vocação para trilha. Começamos a ficar realmente preocupados quando a ruela pela qual seguíamos ganhou traços exagerados de elo perdido. Teimosos que somos, continuamos nossa jornada mata adentro até nos depararmos com uma imponente porteira. Porteira no meio do nada é sempre sinônimo de “está na hora de vocês voltarem, seres com pouca inteligência”, mas estava cedo demais e o passeio deveras divertido. Além da lógica, não havia motivo algum para não seguir em frente. Jogamos as bicicletas por cima do cercado (achando o máximo) e seguimos avante morro acima pedalando até aonde deu.

Imaginávamos que em algum momento a tal estrada iria melhorar, o que não aconteceu. Mesmo assim continuamos a divertida empurradela, agora com o desnecessário propósito de pelo menos descobrir aonde diabos esse caminho iria parar. E foi assim que caímos na pior das emboscadas. Fomos repentinamente atacados por uma nuvem de demônios sugadores de sangue. Bestas voantes biologicamente modificadas de tamanho bem acima do usual (da grandeza de uma barata, praticamente) que impiedosamente nos cercaram. Tomados pelo desespero, colocamos as bicicletas na corcunda e corremos em direção ao topo da floresta, fugindo de um denso aglomero de mais de um bilhão de mosquitos (com o perdão do exagero), terríveis pequenos diabos mutantes desesperados por sangue humano. – Que o sol destrua todos vocês, seres do inferno! Praguejamos inutilmente. Dali para frente havia tanto espinho na emaranhada trilha que ficou impossível seguir adiante e tão logo tivemos que voltar e encarar os pequenos e endiabrados vampiros novamente. Penso ser desnecessário repetir todo o melodrama pelo qual fomos obrigado a passar mais uma vez.

Deu vontade de beijar o solo quando reencontramos a saudosa estradinha de chão. Com as pernas lanhadas e semidevoradas por aqueles rechonchudos vermes voadores e as suas comparsas mamonas bicudas com navalhas de adamantium na ponta, seguimos sorrindo (ou quase isso) da nossa presepada imaginando a cara sínica de satisfação daquele urubu modorrento que ficou se espreguiçando lá atrás, em cima do poste. O mais estranho de tudo é que o picareta do nosso GPS nos mandou por um caminho totalmente ao contrário do que foi traçado. Dispositivo embirrado com complexo de superioridade é tudo o que não precisamos num aparelho de GPS... mas vai fazer o quê? Já que ele geralmente deixa os pedais mais divertidos.

- Tragam repelente radioativo na próxima, bando de trouxas...

- Sim senhor, mestre “bicicleteiro”.

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Comentários
Sex, 22 de fevereiro de 2013
escrito por: Eleonesio Leitzke
Bonitas fotos meus camaradas.....eu começo nesse fim de semana uma nova sequencia de pedais visando os Audax do ano e a prova do desafio dos rochas em Pomerode em abril. Um grande abraço.
Sex, 22 de fevereiro de 2013
escrito por: Eleonesio Leitzke
p.s.: os malditos cachorros nunca faltam para dar aquele gás extra, não é mesmo?
Sex, 22 de fevereiro de 2013
escrito por: Alba
Adorei o relato dos mosquitos, estou rindo muito aqui, pois aconteceu a mesma coisa comigo aqui no Rio, só que faço trilha a pé rsrsrsrs e eu não tive tanta inspiração assim para escrever sobre aquelas pestes rsrsrsrs
Parabéns pelo feito, pois parece fácil, mas nem sempre é ;)
Qua, 13 de março de 2013
escrito por: Roberto
Show de Bola...
Invejo vocês (no bom sentido, não me levem a mal...)
Estou começando agora (apesar de 45 anos...), pretendo percorrer 140 km em novembro (é a meta...) aki na minha região não existe muita "parceria" para isso... mas vou ver o que consigo...
Abraços e continuarei acompanhando vocês...
Qui, 14 de março de 2013
escrito por: Roberto
Companheiros,
Desculpe incomodar, mas estou com um projeto para a criação de um blog, acredito que isso fará com que chame a atenção de alguns parceiros.
A ideia é a criação de um grupo de cicloturismo para fazer, de início, pequenas aventuras pelo interior.
Aqui na nossa região não existe nada parecido, pelo menos não encontrei.
Preciso da ajuda de vocês, com dicas e tudo mais, levando em consideração a experiência de vocês, se puderem ajudar ficarei muito grato...
Abraços e boas aventuras.....
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