Qua, 15 de fevereiro de 2012
Pedalada noturna com "bikenique" na terra de Maria
Escrito por: Rodrigo Martins
   

A insensata pedalada feita pelos quatro desmiolados amigos aconteceu ainda no ano passado, no remoto início de novembro. Mas para efeito de dramatização, façamos de conta que foi feita mais recentemente, no singelo e derradeiro ano de 2012. Iniciar uma pedalada as 3h30 da madrugada de sábado para domingo em São Pedro de Alcântara, poucos quilômetros aquém do fim do mundo? Convenhamos que isso não seja feitio de pessoas mentalmente regulares. Queria até poder reclamar que acordamos muito cedo, mas o fato é que ninguém dormiu. Na melhor das hipóteses, um enganador cochilo. E o mais estranho é que todos chegaram ao ponto de encontro sorrindo e se não estou enganado, diria até que entusiasmados. Por sorte, desta vez fomos com o carro do Roberto. Sempre que vamos com o Marcelo, temos antes que assistir ao “não vale a pena ver de novo” da mais entediante das novelas que é a criatura amarrando as bikes no suporte. Num dia bom, no mínimo uma meia hora assistindo o ritual. Só falta dar três pontinhos de solda para elas nunca mais saírem dali. Quando se refere a pedalar, Roberto já é mais desapegado com as coisas corretas e com uma bela e horrenda amarração, em menos de cinco minutos já estávamos na estrada. Nada mais justo do que pagar pela língua e pasmados ficamos ao chegar à bacana São Pedro. Ao descer do carro após entediantes 30 km de uma sonolenta viagem, encontramos às quatro infelizes bicicletas penduradas por um fio, com o suporte todo torto, apenas alguns segundos de se estatelarem no impiedoso chão. Impagável a fisionomia de choque dos quatro incrédulos pouco antes de quase acontecer o primeiro caso de ataque cardíaco coletivo da história do pedal. Tentamos não pensar muito na possibilidade do que poderia ter acontecido e nos apressamos em ajeitar as coisas para focar no que realmente importava - que era a tal pedalada noturna. Não havia nada na pacata cidade. A última movimentação de humanos na escura madrugada da pequena praça de São Pedro foi quando recentemente uns perturbados caixeiros explodiram as duas únicas agências bancárias do local. Ser confundidos com assaltantes de banco não estava em nossos planos e só para garantir, ligamos para a polícia local avisando da possível presença de pessoas esquisitas vagando madrugada adentro na região. 

Nenhum guapeca sequer latindo e o elegante silêncio da bela noite só foi quebrado pelas abundantes reclamações voltadas ao Senhor Roberto. - Vai ler o manual do escoteiro mirim e aprender a amarrar as bicicletas direito, seu cascudo! Entre tantas outras malcriações que ele ouviu por um bocado de tempo.

Iniciamos a empolgante pedalada no horário previsto e em poucos minutos saímos dos horrorosos paralelepípedos para saudar essa que é talvez a nossa estrada de chão predileta. Incontáveis as vezes que já rodamos por aquela região e talvez seja o único local que nos permita pedalar muito tranquilamente no incomum horário. Claro, ignorando naturalmente o ataque aos bancos por aparentemente se tratar de algo isolado. No máximo, tomar cuidado com algum empolgado de Kombi ziguezagueando pelas já sinuosas estradas, animado por algumas doses do bom e Velho Barreiro. O local não é perfeito, já que é habitado pelos defeituosos humanos, mas é bem próximo disso.

Apesar de ser não tão longe de casa, a região parece pertencer a outro hemisfério. Aquele lá do extremo austral onde vivem os engraçadinhos pinguins. Sempre consideramos a possibilidade de temperaturas mais amenas na região, mas o fato é que o exagerado frio fora de época nos pegou de surpresa.

A sensação de ver o dia amanhecer pedalando é inarrável. Roberto queixava-se um pouco com dor no forévis, mas nada que pudesse atrapalhar o momento único. Muito tempo sem pedalar, penava nas eternas subidinhas. Queríamos sentir pena da criatura, mas não estávamos recuperados do ainda recente traumático momento e imagens deprimentes de nossas bicicletas espatifadas no chão eram recorrentes em nossos pensamentos.

Calejados de tanto passar fome por lugares ermos, resolvemos inovar desta vez e fizemos uma espécie de “bikenique” na porta da igreja de Betânia. Alforjes sob medida confeccionados na “Vanderléia Sports” permitem agora que os molambentos levem de casa o próprio lanche (Pepsis geladas incluso!). Já é difícil achar comida para nós – os “não chatos”. Imagina então para a ala vegana do grupo. Comemos até estufar a pança e o refri mega-gelado ajudou a congelar a alma. Ranger os dentes foi moda naquele momento.

Somente alguns poucos quilômetros depois de Betânia (distrito pertencente à Angelina) é que começou a esquentar, haja vista que não paramos de subir por uma eternidade. Parávamos em intervalos regulares para aliviar um pouco o sofrimento do Roberto. Enquanto descansávamos, sentado parecia brincar de imitar uma estátua e cutucávamos o amigo apenas para saber se ainda estava respirando. Em algum momento, muito tempo depois - começamos a descer e os ânimos retornaram.

Já na parte baixa, em Antônio Carlos, convencemos o Roberto a chamar o guincho. Gentilmente, Charles – a mesma boa alma que nos levou -, fez a caridade de ir buscar o moribundo Roberto. O restante do grupo seguiu pedalando para casa, agora num horroroso calor. Num intervalo de pouco mais de duas horas, tivemos uma variação de temperatura de quase 20°. Percurso cansativo, porém muito bacana e que beirou os 85 km. Passamos frio e depois calor, mas pelo menos desta vez - não passamos fome. Pedalando e aprendendo...

Num futuro distante, mais próximo de quando os dinossauros voltarem a passear pela terra - esse tipo de penteado será uma moda imitada por todos. Mas até lá, o melhor mesmo é nem comentar.

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Comentários
Qua, 15 de fevereiro de 2012
escrito por: Vanderléia
Muito bom! E eu ainda acho graça... depois de tanto tempo.
Qua, 15 de fevereiro de 2012
escrito por: Priscila 'Guiga'
Hahaha! Cutucar o amigo para ver se estar respirando é dose... Imagino o estado da criatura. Mas, também, pedalar no frio é só para os malucos, aposto que até o Krusty fica catatônico.
Qua, 15 de fevereiro de 2012
escrito por: Waldson (Antigão)
Ahahahah! Esse penteado a "La capacete" foi o máximo, ahahah!
Acho que a minha família tem razão. Nós pedalantes sofremos de algum distúrbio. Levantar ás 3:30 horas da matina para pedalar é coisa de doido mesmo!Mas, convenhamos: É um "distúrbio" que nos causa imenso prazer, né?!
Essa de levar o lanche é muito legal. Agora com as lancheiras individuais vai ficar melhor ainda!

Muito legal a pedalada e as fotos. Ver as bikes rodando de faróis acesos em plena madrugada me dá uma saudade danada!

Grande abraço e... vamo que vamo!
Qui, 16 de fevereiro de 2012
escrito por: Marco
Este é o caminho do Trilhas BR? (http://www.trilhasbr.com.br/trilhas_028_sao_pedro_de_alcantara.php).

Conheço esse caminho, fiz ele e não é fácil. Mas pela quilometragem que vocês descreveram deve ser outro ou, ao menos, ampliado.
Qui, 16 de fevereiro de 2012
escrito por: Roberto
Essa pedalada foi ótima,depois de muito tempo sem pedalar com os 3 divertidos amigos foi uma delicia sentir o vento batendo e a sensação de
liberdade novamente, pena que não consegui terminar o percurso, fora de forma e o peso do penteado único no mundo, nem Neymar tem pesou
um pouco. Rsss...Mais estou trabalhando para estar em forma até a 4ª viagem da turma.
Sáb, 18 de fevereiro de 2012
escrito por: agnaldo giovane (rede depedal montenegro RS)
muito legal ,gosto muito destas aventuras ,parabens..................
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