Ter, 31 de maio de 2016
Pedaladas de Carnaval: Braço do Norte, Grão-Pará e Orleans
Escrito por: Rodrigo Martins
   

O sineiro já havia incomodado metade do arrabalde e nada de meu Tio acordar. Na rua apenas nós e uma trinca de jaguaras que fazia sua ronda matinal atrás de comida. Tomamos nosso segundo café da manhã bastante sossegados já em terras braçonortenses por volta das nove horas e na mesa posta, Coca-Cola e cavaquinho a vontade. O GPS deu aquela madrugadora surtada costumeira deixando-nos sem saber por onde seguir e antes mesmo de conseguirmos ajustar o prumo novamente, a bicicleta do Toninho enguiçou bem prestes a adentrarmos no mundo do nada. Já rodando pelas cercanias de Grão Pará, encontramos a mais esquisita das lojinhas de bike e juro ter visto o mecânico perambulando no Condado em um dos filmes de O Senhor dos Anéis. Bastou uma chave de fenda e o conhecimento certo para fazer o grupo se sentir um pouco mais aliviado.

No mercadinho logo em frente, sujamos os dentes com a pior paçoca do mundo e nem o guaranazinho da Água da Serra foi capaz de limpar tal gosto ruim. Dali em diante e por um bocado de tempo, o padrão foi bastante morro acima e pedalamos isolados por três dezenas de quilômetros. Sem comida e com as caramanholas racionando os últimos pingos, paramos para mendigar água na primeira comunidade que surgiu. Fomos muito bem socorridos por pessoas simpáticas e de sotaque engraçado que não fizeram cerimônia alguma para se aglomerarem de maneira curiosa a fim de uma boa prosa com os exóticos e esfomeados ciclistas aparentemente oriundos de outro planeta e que pareciam bastante perdidos naquele sol de meio da tarde. Faltava pouco para chegarmos na cidade seguinte e dispensamos a primeira bodega que cruzamos, pois apesar da exagerada fome, pão com mortadela estava longe do agrado de todos.

Ficamos um pouco decepcionados com o estado descuidado das famosas esculturas do paredão de Orleans, jurando os desacreditados políticos locais que tão logo a cultuada obra de arte ao ar livre passará por um fino trato recebendo uma cuidadosa revitalizada. O grande feito do Zé Diabo (AKA: José Fernandes) foi esculpido ainda nos anos oitenta e trata-se de um conjunto de painéis sacros entalhados em rocha com mais de duzentos metros de comprimento que retrata passagens bíblicas que vão desde a criação do homem até os profetas do antigo testamento - e mesmo apesar do desleixo, ainda assim impressionou aos montes os boquiabertos pseudociclistas. Paramos para almoçar apenas as 15h30 e de aberto, só encontramos uma salvadora padaria. Naquele instante, pastel e coxinha pareciam ser as iguarias mais deliciosas do mundo e nem o vodu com teorias hipercalóricas afeminadas que o Marcelo colocou no nosso quindim fez descer arranhado os deliciosos quitutes. Já com a Pepsi devidamente arrotada e merecidamente com os bandulhos abastecidos, subimos pelo asfalto quente até o tal Museu ao ar livre “Princesa Isabel”. Com pompas de ser o primeiro da América Latina nesse estilo, ostenta no panfleto que está instalado numa área de 20.000 m², e “suas construções mantém características tradicionais das pequenas indústrias coloniais utilizadas pelos imigrantes, com diversos equipamentos manuais que possibilitaram ao colonizador a fabricação de objetos para suas necessidades”. A descrição com trejeitos de colonização extraterrestre nos deixou bastante intrigados e despertou nossa curiosidade, no entanto a bela moça do guichê de entrada não nos deixou entrar com as nossas inseparáveis bicicletas, nos restando matar a curiosidade apenas olhando por cima da cerca. De volta à estrada, continuamos por alguns metros pelo asfalto até esbarrarmos no chão batido novamente - aonde subimos um mirrado trecho para então descermos adoidado.

Nesse meio tempo, na trepidação das longas descidas esburacadas, Rodrigo perde o seu farol e meio que desconsolado resolve voltar para procurar, embora sem muita esperança. Marcelo e Toninho seguiram para a casa da Vó e sem o GPS, passaram reto e foram parar em São Ludgero, no mesmo instante em que o Rodrigo subia aos montes atrás do seu Cateye de estimação. Com a benção de São Longuinho, quarenta e tantos minutos depois, Rodrigo encontrou o saltitante farol perdido e voltou seguindo pelo trajeto original, se ferrando mais um bocado morro acima, embora sorridente e entusiasmado pela boa sorte, chegando em casa somente após as 19h30 - ansioso pelo bom banho e principalmente pela tão esperada janta. Na televisão, só as bizarrices do Carnaval e motivados pela falta do que fazer, antes do esperado já estávamos todos dormindo. Despertamos muito cedo, de madrugada, e o desjejum foi tomado ainda antes do amanhecer. Um pouco depois apenas do oitavo cacarejo, nossas empoeiradas bicicletas já estavam rodando novamente e ainda cansados da puxada do dia anterior, passamos a manhã toda subindo durante um dia predominantemente nublado com raras aberturas de sol. A estrada era um pouco chata de se fazer e na parte da manhã rendemos muito pouco. Garantimos o almoço num boteco comendo um pastel horroroso por excelência, tendo a sensação de que teria sido melhor se tivéssemos passado um pouco de fome. O objetivo do dia era a visitação das escarpas da Serra Geral, no Parque Estadual da Serra Furada, localizado entre os municípios de Orleans e Grão-Pará. Chegamos tarde na entrada e até encontrarmos a ruela certa, foi-se um tempo precioso. O tempo fechado não permitia a visão da tal Pedra Furada (uma fenda arenítica de 45 metros de altura que pode ser observada desde muito longe), o que nos fez abortar a inserta no parque. Entre lamentos e choramingos, ficou combinado de virmos em outro momento com mais tempo e condições climáticas favoráveis, já que o espetacular local merece ser apreciado com a devida calma. A segunda parte do dia foi um trecho muito mais bacana com intermináveis “sobe e desce”, o que finalmente fez a pedalada render para valer.

Chegamos antes do anoitecer e menos acabados que no dia anterior. Estufamos a pança com o básico macarrão com carne moída para tão logo seguirmos viagem de volta à Florianópolis, agora sim numa movimentada 101. No radinho do carro, uma coletânea dos anos 80 fez a viagem parecer bem mais curta, tocando desde Metrô, Ritchie, Herva Doce, Egotrip e Plebe Rude, até... pasmem!, Tetê Espíndola. E naquele momento mal sabíamos que o hitzinho do Carnaval foi uma tal de Vingadora com o seu Paredão Metralhadora, que mais tarde nos fez momentaneamente desejarmos ser surdos...

Há pouco mais de um ano, numa divertida pedalada pelas mesmas bandas, o destino sorriu generosamente para essa querida cachorrinha e graças a uma série de acasos, nossos caminhos se cruzaram e num bonito gesto de solidariedade pudemos resgatar e providenciar um belo lar para a carismática Fernanda. Muito felizes ficamos em saber que cresceu (mais até do que o esperado...) com saúde e continua sendo muito bem tratada e cuidada. Mais até do que alguns de nós, os molambentos do Pedaladas...

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Comentários
Qui, 08 de dezembro de 2016
escrito por: Eleonésio Diomar Leitzke
Curioso pelo relato do pedal interplanetário nos domínios do leão da montanha.

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