Ter, 03 de fevereiro de 2015
Um suave passeio de verão lá pelos cantos do Morro dos Pilões...
Escrito por: Rodrigo Martins
   

Lá no fundo da geladeira, quase escondido, encontrei exatamente o que precisava para me animar nessa precoce primeira pedalada do ano. Com o pote mágico lacrado nas mãos, suspirei e sentei na cadeira mais próxima de forma bastante desleixada ainda pregado de sono e armado com a maior colher que encontrei. O doce cheiro me fez sentir uma pessoa especial e ao enfiar uma caprichada colherada na boca, me senti a pessoa mais feliz do mundo. Prometi a mim mesmo que seria uma única colher apenas, algo que eu sabia ser impossível cumprir. Tentei desviar meus pensamentos enquanto me aprontava, mas não conseguia pensar em mais nada e tive que me ajeitar na cadeira novamente para lamber a colher uma outra vez. Quando Marcelo buzinou na frente de casa já estava satisfeito e me sentindo alguns anos mais jovem e sequer percebi que nem havia amanhecido ainda. Até gosto desse doce de leite Mu-Mu pelo qual fomos criados, mas depois que você experimenta um desses da Sancor não quer saber de outra coisa. Até parei de falar mal de Argentino e sinto inveja dos Hermanos que não precisam garimpar os supermercados atrás do melhor doce de leite do mundo. A esticada de carro até os arredores de Aririú passou despercebida e enquanto descíamos as bicicletas do Transcaloi – os outros dois perturbados madrugadores chegavam no local combinado. Passava um pouco das sete horas e os galináceos já haviam parado de cacarejar, dando a impressão de que até era mais tarde do que parecia. Ao pé do Cambirela íamos decidindo por onde e para aonde ir. Marcos, o nativo do singular lugarejo guiava e a trupe seguia torcendo para que nenhum indigesto morro aparecesse pela frente, pelo menos não no início da manhã. Acordar primeiro era importante.

Mesmo de manhã cedo, já fazia um calor do caramba e além de não conseguir parar de pensar no meio pote de doce de leite que ficou para trás, comecei a sentir saudade do ar-condicionado. Já havíamos pedalado por aquela região em outras oportunidades e por algum tempo repetimos trajeto até que quebramos por uma inédita vertente, morro acima finalmente.

O visual do morro dos Quadros é tão bonito que a longa subida sequer incomoda. Infinitas pedrinhas soltas nos fizeram pedalar mais cuidadosamente e quase cair foi uma constante, patinando algumas vezes em pequenos trechos de inclinações mais íngremes. A bela estrada termina na Estação de Tratamento de Água – (ETA) José Pedro Horstmann e a entrada não é permitida para os meros mortais, o que não se aplica ao nosso caso. Solicitado com antecedência e com a devida autorização, de passaporte VIP na mão entramos para conhecer o belo complexo da CASAN. Bebericamos um pouco de água descansando à sombra enquanto conversávamos com o simpático vigia que nos passava as coordenadas. Havia mais um pequeno trecho a ser pedalado até chegarmos na barragem do manancial de Pilões, que penso eu já ser em Santo Amaro da Imperatriz.

As obras da barragem de Pilões iniciaram em 1945, sendo inaugurada um ano depois, beneficiando as cidades de São José, Palhoça, Santo Amaro e Biguaçu – que passaram a fazer parte do sistema integrado de abastecimento de água de Florianópolis e que hoje provê uma população urbana de mais de setecentas mil cabeças humanas, totalizando algo superior a 120 mil ligações residenciais.

Enquanto matávamos a curiosidade pelo local, lambuzávamos os dedos com sachezinhos de mel. Tínhamos pela frente uma pequena subida e de resto, uma longa serpenteada morro abaixo perfazendo parte do caminho de volta - acompanhando sempre a sutileza das curvas do rio Vargem do Braço. Já fora das dependências da CASAN e mais para perto do fim do morro, entramos numa trilhazinha à direita e seguimos as vezes pedalando e as vezes empurrando - até chegarmos naquilo que parece muito com uma praia. A convidativa água de tom dourado perde parte do seu encanto quando metemos os pés nela. Tão exageradamente gelada que de início nos fez titubear, mas o forte calor lascando nossos cocurutos num pelante sol de quase meio-dia nos fez mergulhar sem muita cerimonia. No primeiro impacto com o desgelo tive a impressão de que o coração parou um pouco de bater e cheguei a pensar que aquela sensação de frio duraria para sempre. Assim que o corpo se acostumou, a vontade era de nunca mais sair daquela água rejuvenescedora. Mas há pessoas casadas no grupo e o alvará de soltura não dura para sempre e alguma meia hora depois seguimos nosso rumo trilha acima desta vez.

De resto foi encarar o forte sol naquilo que faltava para pedalar, parando apenas numa estranha bodega aonde bebemos o melhor caldo de cana dos últimos tempos - dando aquela revitalizada nas almas desidratadas. Divertido início de um ano que parece promissor nessas nossas vidas de brincar de pedalar. E, nesse meio tempo, indo para casa lamber o resto do pote do doce de leite que ficou e daqui para frente mendigar com alguma boa alma que esteja enveredando por terras argentinas para que me traga um mega-balde da Sancor para renovar o meu estoque.

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Comentários
Ter, 03 de fevereiro de 2015
escrito por: João Doggett
Rapazzz! Já comi um desses da sancor. Potinho branco com uma vaquinha simpática na frente. E o negócio é lamber de colher mesmo, pois nenhum pão é digno desse doce de leite. Completamente viciado. Se procurar acha uns potes pequenos nos super de Floripa. Gostei das fotos. Acho que vou me aventurar também por essas bandas. Parece legal o riozinho pra tomar banho. Valeu galera! Melhor site de bike do mundo o de vcs, sempre!
Ter, 03 de fevereiro de 2015
escrito por: Silvano Balsanelli...FURBO
Show de pedal galera...abraço dos amigos da FURBO.
Qua, 04 de fevereiro de 2015
escrito por: Dorgivan santos
Bom dia finalmente tive tempo para deliciar-me de um bom e humorístico relato. As fotos nos leva ao encontro do belo.É como eu estivesse a pedalar com vocês. Apenas eu pensei... Até ai precisa-se de Alvará de soltura,rsrsrrrsrs Brincadeira a parte, Sempre um bom e fantástico relato! abraços e já ansioso para ler O próximo!
Sáb, 14 de março de 2015
escrito por: Waldson - Antigão Cicloturista
Caramba, até pensei que, como São Paulo, não haveria água na barragem! Mas eis que algumas fotos abaixo e a água estava lá.

Parabéns amigos, mais um belo pedal!

Grande cicloabraço do Antigão!
Qui, 22 de dezembro de 2016
escrito por: Silvio Adriani Cardoso
Este Salto dos Pilões é um que é possível avistar la do topo do Cambirela? Você não tem nenhuma foto tirada desde os Pilões com o Cambirela ao fundo? Se tiver, podes me mandar por favor?
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