Qua, 06 de maio de 2015
Pedaladas de Páscoa: a história de uma cachorrinha chamada Fernando - primeira parte
Escrito por: Rodrigo Martins
   

Ostentando espaço num desnecessário comboio de dois carros para quatro pessoas – seguimos viagem numa neblinada aurora vagueando por uma BR-101 surpreendentemente vazia. Brincando de Speedy Gonzáles atrás do volante, Roberto nos fez chegar em Braço do Norte bem mais cedo do que o combinado e enquanto esperávamos a parentada acordar, aos poucos eu ia engolindo meu coração de volta (e diziam que o bom moço devagar dirigia...). Num improvisado café da manhã com cuca, cavaquinho e Coca light – forramos o bandulho e após escovar os dentes, tomamos assento pedalando bastante morro acima - iniciando assim, mais uma tradicional viagem de Páscoa. Na primeira curva o infeliz GPS se esborrachou no chão apagando completamente, fazendo nossas pobres almas gelarem. Com algum custo conseguimos fazer o brinquedo funcionar novamente, desconsiderando a mensagem malcriada que ele nos mostrou. De forma bastante talentosa, um forte sol nos fez penar um bocado nos doze quilômetros iniciais de subida. Em algum momento sabíamos que iríamos descer e quando isso aconteceu, foi bem menos do que gostaríamos. Chegamos em Orleans beirando a primeira hora da tarde e encontrar algum cidadão perambulando na rua para pedir informação não foi uma tarefa fácil. Por sorte encontramos o lugar perfeito e assim pudemos descansar um pouco e almoçar com fartura. Fazia 32° e enrolamos o tempo que podíamos no restaurante até ter que voltar a torrar o cocuruto.

Com uma mão no guidon e a outra segurando o picolé (sabor água de pia) – reiniciamos nossa santa jornada agora em direção a São Ludgero. Subimos outro tanto novamente, mas desta vez descemos até quase enjoar. No sopé do morro, após cansar os dedos de tanto frear - invadimos um boteco estilo retrô buscando água gelada quase que desesperadamente e eis que ali encontramos o saudoso Teem (para a pior sede!) em garrafinha de vidro. Se o sujeito que nos atendeu desfilando um bigode estilo Magnum anos 80 botasse para tocar Cyndi Lauper gravado numa fita Basf 90 em algum poderoso 3 em 1 – eu sequer ficaria surpreso. Roberto aproveitou o estiloso banco para esticar as costas e até roncou enquanto ligávamos para o Fernando para proferir algumas malcriações por sua ausência, apenas pelo simples prazer de incomodar.

Cientes que o inferno não é pior do que a floresta - cruzamos as imponentes árvores respeitosamente, atento a todos os seres que nos espreitavam. Não demoraria para escurecer e nos obrigamos a acelerar o pedal, aproveitando a ausência de cascalhos na simpática estrada de barro batido. Um pouco à frente de todos e num incomum ataque de bons modos, subi uma pequena encosta para não desaguar na estrada. Bastante concentrado na tarefa, fui atrapalhado pelo barulho de alguma criatura se movendo e logo pensei no pior... talvez um puma ou algumas piranhas voadoras preguiçosas que preferiram rastejar do rio abaixo. Ao sentir o ser (ou seres) se aproximar, precavido dei dois passos para trás e corri os olhos em todas as direções não conseguindo avistar entidade alguma, apenas sentindo o oportunista predador me rodeando. Foi quando instintivamente olhei para baixo e avistei um pequeno cãozinho abanando a calda numa contagiante felicidade, correndo por entre as folhas de forma quase que imperceptível. Certo de que o Warlock da floresta resolveu me poupar e ao invés de enviar alguma monstruosidade – mandou a mais doce das criaturas possíveis – e em oferenda, dei toda a minha água ao pobre cão que bebericava desesperadamente, enquanto eu aguardava os outros três colegas de viagem. Nesse momento um sentimento de raiva muito grande preencheu meu coração. Como pode um ser humano abandonar uma criatura assim? Longe de tudo e de todos, totalmente indefesa, sem água e muito menos comida... A alma desgraçada não deu chance alguma ao infeliz filhote e quando os amigos chegaram ficaram tão perplexamente indignados quanto eu. Éder deu ao cão o que lhe restava de comida (pão com mortadela da Turma da Mônica) e sem ao menos perceber, todos os quatro já estavam hipnotizados pelo carisma do pequeno animal que devorava o que lhe foi tão carinhosamente servido. – Não podemos deixar esse bichinho aqui!, ponderou o comovido Éder, enquanto Roberto lambia e era lambido pelo engraçado cachorro. Ajeitamos o cachorrinho dentro do alforje do Éder e apenas com a cabecinha de fora, o pequeno rebento ia aproveitando de forma serena a viagem - parecendo ter entendimento de tudo que estava lhe acontecendo. Não demorou muito para batizarmos o nosso novo amigo de “Fernando”, numa singela homenagem ao comparsa que não pode vir. Rindo da inusitada situação, felizes e orgulhosos da boa ação, pedalamos assim durante vinte e cinco quilômetros (ou mais) - chamando a atenção de quem via e assim não entendia o porquê de um cãozinho viajando na garupa de uma invocada bicicleta em companhia de quatro fedegosos marmanjos.

A noite caiu muito rapidamente e a imponente lua cheia era um assombro, pois um de nossos colegas é sabidamente um licantropo (vulgo lobisomem...). Sua metamorfose é controlada, embora irá sempre existir a possibilidade de que ele esqueça de tomar seu medicamento. Já em casa e agora mais tranquilos, acomodados e de banho tomado, apenas tagarelando e esperando a janta ficar pronta. Enquanto brincávamos com o faceiro Fernando – percebemos o pequeno ser urinar de uma maneira um pouco inusitada. – Alguém por acaso se deu o trabalho de olhar se o bichinho é macho ou fêmea? Indagou o Roberto arrancando risos curiosos de todos. Mais ainda quando descobrimos que Fernando era na verdade... uma cadela! Ainda rindo de tudo e praticamente salivando de fome, os quatro esfomeados sentaram à mesa posta pela Tia Irene e pouco se importaram com as boas maneiras – comendo até estufar. A novela mal havia começado e o nosso amigo Roberto já estava na cama desmaiado. Antes de dormir ainda olhei algumas vezes para ver se o mesmo respirava. Sem chocolate em lugar algum da casa, atacamos um pote de sorvete caseiro que fez as crianças pedalantes irem dormir felizes da vida e com o coração em paz.

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Comentários
Qua, 06 de maio de 2015
escrito por: Tuquinha
Como sempre, belíssimas fotos e ótimo texto, parabéns amigos!
Qua, 06 de maio de 2015
escrito por: Furbo
Show de pedal.....é isso galera pedalar é curtir a natureza e arejar a mente....abraço.
Qua, 06 de maio de 2015
escrito por: elpidio
Belissimas imagens Parabéns pela viagem
Qua, 06 de maio de 2015
escrito por: Fernando
Comovido com a homenagem feita pelos amigos a este moribundo aqui que, infelizmente, mais uma vez, não pode comparecer.
Agora... cadê a foto da garrafinha de Teen? Essa eu queria ver!
Qua, 06 de maio de 2015
escrito por: xamã
Hola,
Antigamente vcs pedalavam mais rsrsrs
Abraços pantaneiros
Qua, 06 de maio de 2015
escrito por: Dorgivan Santos.
Como sempre sinto-me como estivesse a pedalar com vcs. Show de pedal relato como sempre hilário muito Companheirismo!!
Qua, 06 de maio de 2015
escrito por: João Dogget
Huahuahuahuahuahua...
Bando de dementes! Quem de vocês é lobisomem? Bigode do Magnum foi sacanagem! Fita Basf 90 tocando Cyndi Lauper é coisa de quem não bate muito bem da cachola... Teem até já vi por aí. Quando vocês acharem um Guaraná Sielva, aí sim eu vou acreditar que vocês fazem bruxaria. Agora falando sério, legal o lance do cachorrinho. Fiquei até emocionado. Parabéns galera. Grato por compartilhar essas aventuras engraçadas.
Abraço do amigo João!
Qua, 06 de maio de 2015
escrito por: Jedson Eleuterio
Nossa, o Fernando virou Fernanda. Não dá pra faltar nesses pedais que o cara vira o assunto do grupo. hilário. Me divirto muito com isso.
Qui, 07 de maio de 2015
escrito por: Eleonesio
Show de relato, só faltou a foto da garrafa de refrigerante e faltaram as citações musicais, nenhuma referência a alguma banda de décadas passadas??
Rsrs, e como não podia deixar passar em branco, estou imaginando o cachorro sacudindo a "Calda??"....hahaha.

Abração
Sáb, 16 de maio de 2015
escrito por: Waldson - Antigão Cicloturista
Show de relato e como sempre, belas fotos! Poxa, fiquei compadecido da "Fernanda", tadinha. Parabéns pelo vosso gesto em resgatá-la do nada!

Grande cicloabraço do Antigão!
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