Qua, 11 de setembro de 2013
Viajando no feriadão do Dia dos Fiéis Defuntos: segunda etapa, de Nova Trento à Angelina
Escrito por: Rodrigo Martins
   

A ideia sempre é dormir até um pouco mais tarde, no entanto quando uma das três espécimes que hiberna no mesmo quarto é o senhor Marcelo, a estendida soneca celestial se torna apenas um delírio que vaga em forma de absurdo em nossos felizes pensamentos. Menos mal que tivemos uma agradável noite de sono, apesar dos costumeiros ursos ronronantes que sempre nos perseguem nessas viagens ciclísticas. A bela pousada em que dormitamos era bastante organizada, nos oferecendo por fim, um bonito café da manhã - digno de estufar a pança e engatilhar um inicio de dia mais sorridente, apesar do templo nublado janela afora. Rapidamente arrumamos a desordem que ficou para trás nos confortáveis quartos e cedo (*cedo para nós, usuários do lendário G-SHOCK, é alguma coisa apenas um pouco antes do meio-dia) já estávamos na estrada. Enquanto fotografávamos paisagens psicodélicas no ajeitado centrinho de Nova Trento, três simpáticos motoqueiros (um casal e o sobrinho marmanjo) vieram puxar conversa com a trinca de molambos. Nos identificamos bastante com os tais “Fazedores de Chuva”, pois fazem por hábito algo muito parecido que nós – que é rodar por Santa Catarina afora no intuito de conhecer o maior número de municípios possíveis. A diferença está apenas no nível de deslocamento. Enquanto a plebe rala a alma pedalando pelos percalços sem fim, os nossos doppelgänger mais chiques pilotam duas incrementadas motocicletas futurísticas com tantos acessórios, parafernálias cibernéticas e penduricalhos que sou incapaz de descrever. Se eles nos tivessem dito que um dia foram de moto até a lua com aquelas espaçonaves de duas rodas, provavelmente teríamos acreditado. Em algum momento deu vontade até de largar essa vida miserável de ciclista e sair viajando nas confortáveis motocas. Embora que, se as nossas três bicicletas fossem muito bem vendidas, sequer juntaríamos moedas o suficiente para comprar um único capacete do tipo aeroespacial que os bacanas usavam.

Lá pelas tantas, no meio do nada, um pneu furado. Fazia tempo que não parávamos para trocar um infeliz desses no caminho, sendo que nesse meio tempo a água acabou - iniciando-se o processo de mentalização Jedi para a materialização de um vilarejo qualquer. O mormaço maltratava e nesse ponto já lutávamos contra a sede. A primeira birosca aberta que encontramos chegou a causar calafrios. Um casebre estilo Família Addans (um pouco mais trash, inclusive) e com um cheiro de chulé dos infernos, além de estar sitiado por uma meia dúzia de pistoleiros mexicanos muito mal encarados de lambuja. Parecia, na verdade, o Mc Donald’s de satã. Melhor passar fome – pensamos. Um pouco mais à frente, uma esbelta moça nos tranquilizou indicando uma bela padaria mais adiante. Duas na verdade. Escolhemos a que tinha a atendente mais bonita, naturalmente. Lugar perfeito: pastéis, coxinha, pão com almôndega e no final uma torta doce para celebrar o felizardo momento. Com as simpáticas barrigas cheias e uma preocupação a menos, continuamos a nossa jornada rumo à cidade da Senhora Jolie.

Longas subidas do nada surgiram, deixando claro que mais uma vez fomos enganados com essa estória de “sempre reta daqui para frente”. Perto do auge do ápice (se é que isso existe), já muito cansados e esbaforidos – por entre a mata que nos cercava, ressoou muito de repente um estrondo horroroso que fez as nossas desprevenidas almas tremerem. Parecia um tiranossauro do demônio ou algum ente dos infernos nesse estilo. O urro foi tão alto que fez vibrar os nossos esqueletos. Enquanto desorientados pelo sobressalto, tentávamos nos equilibrar olhando de um lado para o outro repetidamente sem conseguir se situar. Ansiávamos ver o Godzilla ou algum réptil gigantesco qualquer (Ultraseven nessas horas – nada!). Foi quando percebemos que a apenas alguns metros ao lado, por entre os traiçoeiros arbustos, surge uma cabeça de besta gigante, dotada de dois enormes e medonhos chifres. Falamos tanta besteira nessa viagem que o próprio diabo veio nos pegar – pensamos resignados. Claro que não chega a tanto, pois o rapazio que pedala é de boa índole - Of course!, Sure!, Indeed!... Era apenas um boi altamente anabolizado e exageradamente escandaloso pregando sua própria peça aos humanos inferiores de pouca sorte que pedalavam por ali naquele infeliz momento. Pastel e coxinha no almoço, associado a um bizarro e desnecessário susto desses... e as pessoas se perguntam por que criaturas saudáveis como nós eventualmente enfartam por aí sem razão alguma aparente.

Subimos muito e descemos o equivalente. O cidadão da frente berrava insistentemente para os de trás: - Carros! Carros! Várias curvas e nada de automóveis subindo enquanto descíamos imprudentemente. Apenas vários carros estacionados, provavelmente de uma festa que avistamos ao longe. Somente mais adiante é que percebemos que por estar descendo tão rápido (aliado a cachola já cansada) e tendo que cuidar de tantas coisas ao mesmo tempo (buracos, pedras, curvas, automóveis, mulheres bonitas na festa ao longe...) é que os carros parados causavam a impressão de estar subindo, intrigando o trio naquele momento e causando boas risadas da estupidez coletiva mais tarde. Bem que desconfiei do tom fosforescente do suco de laranja do longínquo desjejum – justificava o constrangido causador dos gritos. 

Chegamos ainda de dia no tradicional hotel do centrinho de Angelina, um pouco mais cansados que no dia anterior. Combinamos de não demorar muito no banho para ir jantar logo, já que a cidade vira um deserto assim que escurece e as chances de ficar sem janta são bastante consideráveis. Não havia muitas opções e acabamos indo prestigiar uma pequena lanchonete recém aberta nos arredores da praça. O lanche não era dos melhores, mas serviu para matar a fome. Do banco da praça e comendo paçoca, observamos a saideira da missa e assim que o povaréu dispersou – seguimos para o hotel. Quarto individual e com o frigobar abastecido de Pepsi: perfeito. Pena somente pela TV que só pegava a rede Glóbulo de porcaria.

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Comentários
Qua, 11 de setembro de 2013
escrito por: Dorgivan santos
UM SHOW DE RELATO E BELAS FOTOS, MAIS UM DELICIOSO PEDAL...JÁ ESTIVE EM SÃO JOÃO BATISTA, E NOVA TRENTO..SAIR AQUI DO NORDESTE E FUI CONHECER A FAMOSA OBRA DE BETÃNIA DO PADRE LEO..
Qua, 11 de setembro de 2013
escrito por: Édert Strutz
Parabéns Pessoal... Grande pedal e que bela região para se pedalar!!! Cada Pedal uma história, agora é ficar no aguardo pela 3° parte da viagem... e que venha muito mais pedais!!!
Sex, 13 de setembro de 2013
escrito por: Eleonésio Diomar Leitzke
Hehe, meu ciclístico amigo Dorgivan, que no feriado de 15/11, penará pelos morros do Vale Europeu, me ganhou no primeiro comentário... Nem vou me alongar nos comentários, apenas estou rindo as pampas com a metafísica observação sobre seus doppelgänger e imaginando a cena do touro anabolizado....SAUDAÇÕES MEUS NOBRES AMIGOS.
Sex, 13 de setembro de 2013
escrito por: Waldson (Antigão cicloturista)
Bois que se parecem com monstros, carros que andam mas estão parados, o que vocês andam bebendo durante as pedaladas hein? Ahahahah! Beleza de relato e as fotos cada vez mais lindas e inspiradoras. Ainda bem que daqui há alguns dias terei o prazer de conhecer novos amigos e mais um pouquinho da bela Santa Catarina!
Grande cicloabraço!
Dom, 15 de setembro de 2013
escrito por: Jorge
Senhores, muito boa essa jornada e ainda mais pelo toque de humor na hora de contar! Queria aproveitar e perguntar o tipo de alforges recomendam com base na experiência de vocês.

Valeu!
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