Pedaladas de Páscoa: pedra extraterrestre, botos pescadores e aranha sem noção
Escrito por: Rodrigo Martins em 27/04/2026

Aproveitamos o feriado para dar outro pulo em Braço do Norte. Mesmo destino do ano anterior, porém enveredando por caminhos diferentes, desta feita muito apreciando as poucas subidas que a nova jornada nos oferecia. Da marginal de uma exageradamente movimentada BR-101, olhávamos com curiosidade o que parecia ser um “chamando todos os Autobots” e sem muito entender, pedalávamos numa ensolarada antevéspera de Páscoa, eventualmente resmungando aos ventos da pouco agradável matinada. De Imbituba, seguimos em direção a notável praia do Sol nas belas cercanias de Laguna, ganhando terreno por uma estrada que não muito tempo atrás fora bastante ruim e agora se encontra elegantemente asfaltava, facilitando a vida da dupla pedalante que naquele momento penava com o forte vento contra.

Nossa primeira parada foi nos trilhos da Ferrovia Tereza Cristina, que em algum momento da história já levou humanos para lá e para cá. A FTC foi inaugurada em meados de 1884 e projetada com o propósito de escoar o carvão mineral das minas de Lauro Müller até o porto de Imbituba. Atualmente possui uma malha de 164 km de trilhos que atravessa 14 municípios da região sul catarinense e é especializada em cargas pesadas com o Ferrorama XP 400 tamanho gigante transportando na sua maior parte produtos cerâmicos, contêineres, soja, milho, adubo, além do próprio carvão. Acompanhados de poucas nuvens e muito sol, continuamos o percurso por uma praia limpa, com vasto trecho de areia, águas claras e quase deserta. Mais além, no Morro do Gi, saudamos a venerada Pedra do Frade. Uma estrutura balofa de 30 toneladas com 9 metros de altura que segundo os erveiros locais é de origem extraterrestre, serve de portal para outras dimensões e costumeiramente recebe visitas de espaçonaves alienígenas.

   

Contornamos rapidamente toda orla da praia do Mar Grosso com pausa apenas para sermos extorquidos num boteco pasteleiro de beira de praia que cobrou fortuna por aquilo que viria a ser nosso infeliz almoço. No Canal da Barra, nos Molhes, paramos para admirar os botos pescadores e sua pesca cooperativa com os pescadores artesanais de Laguna. A parceria entre os primos de Flipper e humanos pesqueiros é uma colaboração de tradição secular, patrimônio cultural imaterial que possui leis municipais, estaduais, federais e intergalácticas de proteção. A parceiragem é única no mundo e ocorre com os golfinhos Nariz-de-Garrafa cercando de maneira sincronizada o cardume de Tainhas mazanzas, conduzindo-as na direção dos pescadores que após a letra dada pelos simpáticos cetáceos, habilmente jogam suas tarrafas em direção ao desnorteado pescado.

Após cruzarmos de balsa a Lagoa de Santo Antônio (valor: 3,5 pila de dinheiro brasileiro), prosseguimos por mais 28 quilômetros pela SC-100, a dita rodovia interpraias. Não muito além, fizemos uma breve parada para incomodar a Cristina que, até então, descansava em paz numa pousada na região e tão logo combinamos a carona de volta do dia seguinte continuamos nossa viajem com o Camacho casualmente a nossa esquerda e o lago da Santa mãe do Clark sempre a nossa direita. Com a tarde findando, faltou tempo para visitarmos e só conseguimos ver de revesgueio o longevo Farol de Santa Marta, que com seus 135 invernos consiste na maior estrutura do mundo feita com óleo de baleia e possui um alcance luminoso que dizem ir até a Terra Média, ou mais além. Por terras jaguarunenses, seguimos por entre libélulas e Caramelos (desta vez com o vento soprando do lado certo) por uma estrada pouco movimentada e quase toda asfaltada até a tal da Cidade Azul.

Com mais de 110 mil humanos residentes, a bacana Tubarão é a 13ª maior cidade de Santa Catarina e dela pouco aproveitamos, pois cruzamos o movimentado município já bastante de noite. Cumprindo uma promessa de anos atrás, passamos para visitar o grande amigo Luiz Henrique Ribeiro que além da simpatia e boa prosa, nos esperou com uma bela Pepsi muito gelada. Revigorados com o líquido mágico, nos despedimos do amigo e sua família com um sincero muito obrigado e até breve! e aceleramos para o trecho final, girando desta vez pela assustadora SC-370.

Muita chuva, frio e trechos sem acostamento e sem iluminação dramatizaram os 40 km finais do longo dia e a calmaria veio somente nas proximidades de Gravatal. Chegamos encharcados em Braço do Norte e imediatamente pedimos socorro para Tia Zela para lavar e secar nossas sujismundas roupas que nadavam dentro dos alforjes ditos impermeáveis. Tia Irene, embalada com o horário tardio já se ajeitava para deitar e dormir com a TV ligada no Chaves. A mesa posta com uma bela e gigante pizza vegetariana (+ muito suco de uva) foi muito bem apreciada pela dupla de glutões que de barriga cheia e sem sono, ainda demorou para se recolher.

Na manhã seguinte, um pouco antes do primeiro desjejum, uma anabolizada e não radioativa prima da Laracna que fazia cama na encardida sapatilha do Alvanir picou sem muita cerimônia seu estimado dedão do pé. Pelo que entendemos de uma rápida incerta no Google amigo, aparentemente não era uma espécie de aranha das mais venenosas, não foi preciso fazer gargarejo com Anapyon e tampouco traria grandes poderes com grandes responsabilidades. Um como seria pedalar sem um dos dedos do pé?, foi o encasquetamento do início do pedal e apesar de uma leve dormência, tudo seguiu tranquilamente. Longas subidas numa belíssima estradinha de chão nos levaram até o município de Armazém (onde atacamos a padaria local atrás da merenda) e de lá até as florestas que rodeiam Imaruí.

    

Anoiteceu rápido! Uma noite escura, fria e muito chuvosa novamente que irritou demais o ranzinza GPS (que opera por uma lógica torta) e de pirraça nos mandou para algum lugar deveras estranho. Caminho insólito e sombrio com tufos de grama já bem crescidos indicando que há muito tempo carros e carroças não passavam por ali. Uma velha porteira que do nada surgiu foi o prenúncio de que deveríamos voltar e sair o quanto antes daquilo que algum dia havia sido uma estrada. De barrigas vazias e incomodados com a fome, passamos algum tempo tentando nos localizar no meio do nada e fomos salvos por uma carranca humana que observava atento os viajantes de rumo incerto. Postado diante de um boteco estilo setealém, de muito bom grado o sujeito sisudo com cara de quem sabia das coisas apontou o dedo para a direção correta nos poupando de uma longa e desnecessária volta. Já fora da área rural de Imaruí, a esticada final pela SC-437 foi tensa e arriscada com trechos bastante movimentados e novamente sem iluminação e sem acostamento. Com sinal de telemóvel inexistente, não conseguimos contato algum com a civilização e pela exagerada demora, Cristina já suspeitava de um possível caso de abdução ad aeternum da dupla errante. Nesse meio tempo, a nossa boa samaritana motorista se entretinha passeando nos corredores da Ferju (campeã de boas compras desde 1981, conforme dizem). Chegamos no local combinado por volta das 19h, exageradamente emporcalhados e com as bicicletas completamente enlameadas. Conversa posta em dia, de resto foi só pendurar as bicicletas no transcaloi, fingir que nos limpamos para não levar bronca da Cristina antes de entrar no carro e seguir caminho por mais uns 90 e tantos quilômetros de carro até nossas casas para o sonhado e necessário banho.

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