Volta à Ilha de Santa Catarina: VERSÃO 150 KM
Escrito por: Rodrigo Martins em 06/12/2021

Denominada Florianópolis desde o fim da revolução Federalista em 1894, a antiga Desterro consiste num belo lugarejo de beleza singular. De edificações, folclore e culinária açoriana, tem na Ponte Hercílio Luz seu principal chamariz turístico. Tombada como patrimônio histórico, artístico e arquitetônico de Florianópolis e também fábula do dinheiro público em intermináveis restaurações, a Velha Senhora foi recentemente reaberta após décadas de abandono e interdição e justamente nela, numa madrugada pouco antes da chegada do frio mais rigoroso de um longo inverno que estava por vir é que iniciamos nossa prazenteira jornada de contorno a Ilha. Tremelicando por conta da gelada bruma de um quase amanhecer, atravessei rapidamente a imponente estrutura pênsil para então seguir direto para o ponto de encontro nas proximidades de onde ficava o majestoso Adolfo Konder, o famoso Pasto do Bode, em algum ponto do aterro que veio a ser conhecido como avenida Beira-Mar Norte e de lá seguimos agrupados em direção para onde a bússola sempre aponta. Na intenção de fazer uma pedalada mais intuitiva, dispensamos a opinião do neurastênico GPS e logo nas primeiras bifurcações em Santo Antônio de Lisboa, nos perdemos pelo caminho. Ao longo do mar calmo, com um ou outro pescador madrugador dando movimento a bela paisagem do distrito mais antigo de Florianópolis, podíamos avistar bem ao longe a avenida Beira-Mar Continental, nas terras do próspero Estreito que um dia já fez parte da vizinha São José, porém incorporado a capital catarinense em 1944.

     

Considerada a rodovia estadual mais movimentada de Santa Catarina, a SC-401 possui no seu trecho norte a principal ligação entre o Centro e a porção mais setentrional da Ilha. A tal SC é uma das vias de Florianópolis com maior incidência de acidentes graves envolvendo ciclistas e por conta disso, pedalar por ela é uma atividade sempre muito tensa. Embora naquele momento o trânsito estivesse bastante tranquilo, ansiávamos por sair dela o quanto antes e aceleramos o pedal cruzando uma meia dúzia de bairros em um curto espaço de tempo até aportarmos mais aliviados na primeira de tantas praias do dia. Daniela já é um pequeno bairro, o último do nosso lado esquerdo. Bela praia de mar calmo, areia de cor clara e fina aonde pessoas caminham de tênis, sunga e meia cano alto nos observando como se nós fossemos os esquisitos. Por lá paramos para o primeiro de muitos lanches do dia e esbanjando um cardápio de pouco requinte, nos empanturramos com sobras aparente de algum festejo junino, com muito amendoim, paçoca e cocada.

     

Referência em urbanização e sustentabilidade com ruas, construções e ocupação planejada, a sofisticada Jurerê é um lugar muito além da nossa realidade e seguramente são poucos os humanos que possuem cacife para tamanho esbanjo. Com o cuidado de não ofender a aristocracia de Havaianas com nossas sujismundas bicicletas que ziguezagueavam pelas bem cuidadas travessas e alamedas do bairro de status internacional, cruzamos rapidamente as imponentes mansões, hotéis de luxo e também os invasores de dunas e restinga, os tais beach clubs, e seguimos ladeando o mar em direção à praia seguinte: canasbeach.

Mais modesta que o vizinho abastado, a hispânica Canasvieiras é autossustentável e de vocação festiva, com uma noitada bastante movimentada repleta de bares, restaurantes, lojas e uma infinidade de pousadas e hotéis. É o balneário xodó dos los Hermanos e na estação mais quente do ano, o português passa a ser a segunda língua mais falada no bairro. Não muito adiante, na Cachoeira do Bom Jesus, fizemos uma parada emergencial para fazermos xixi e iniciar o nosso terceiro desjejum numa lojinha de inconveniência que instantes depois ficou abarrotada de outros tantos ciclistas bastante descuidados com o distanciamento e o uso correto de máscaras. Em tempos de pandemia, é o tipo de aglomero que evitamos a todo custo e aligeiramos nossa saída seguindo morro acima pela movimentada rua Leonel Pereira até o simpático e povoado bairro britânico. De areia branca, fofa e relativamente estreita, com mar aberto, mas nem sempre agitado, a praia dos Ingleses é uma das maiores e mais urbanizadas de Florianópolis. Bem ao gosto do folclorista Hélio Costa, a comunidade protegida da Rainha Elisabeth Segunda aparece constantemente nos noticiários como uma das regiões mais violentas da capital, mas nem por isso deixamos de pedalar tranquilamente por lá. Conforme a Zinga ia ficando para trás, cruzávamos todo o distrito de São João Batista do Rio Vermelho num caminho repleto de pinheiros e nada mais, apenas com a gigante e solitária praia do Moçambique sempre postada a nossa esquerda.

Enquanto refrescávamos o cocuruto numa sombreada calçada de um emporcalhado posto de gasolina qualquer nos arredores da praia da Barra da Lagoa, Fernando se divertia relembrando os passinhos dos tempos de Bahamas e Ribeirô Club ao som de Madonna, deixando o Marcos Paulo atônito com sua performance oitentista bastante desinibida. Eram duas e tanto da tarde e nossas sombras já ficavam mais compridas e com os primeiros sinais de cansaço surgindo, penamos um pouco na subida asfaltada do morro da praia Mole. De águas geladas e ondas fortes, a praia da Joaquina é uma das mais famosas do litoral catarinense e atrai surfistas de todos os cantos do mundo e no verão costuma ser palco de grandes festas e eventos esportivos. Nas dunas da Joaca foi criado o Sandboard e por lá já atolamos o pé em algum show do Raimundos. Praia frequentada basicamente pelo público jovem e dito bonito e zelada por uma entidade guapeca guardião da beleza e mocidade que abocanha os pseudociclistas pouco belos e desavisados que por lá ousam pedalar. Muitas obras e um exagerado trânsito, além de um zangado cachorro, dificultaram bastante a boa pedalada pela região. Na formosa e famosa Lagoa, os bares lotados e a muvuca na calçada nos trouxeram lembranças de uma época anterior a pandemia, gerando um tanto de reflexão no quarteto pedalante.

 

Pela Osni Ortiga e costeando a Lagoa da Conceição, seguimos firme em direção a nossa querida Campeche via Rio Tavares. Em franca expansão e supervalorização imobiliária, o bairro do Campeche se modernizou e cresceu um bocado desde a última década e aos poucos vem perdendo seu ar rústico e praieiro. Com tantos automóveis circulando pela folclórica avenida de Antoine de Saint-Exupéry, não ser atropelado naquela movimentada tarde foi considerado por nós um bom presságio. Seguimos então pelo Morro das Pedras em direção ao Pântano do Sul ladeando a Lagoa do Peri e já choramingando antecipadamente pela maior morreba de toda ilha, o tal morro do Ribeirão. Iniciamos uma lenta subida ainda de dia, já cansados e com certa saudade do bizarro almoço de salgadinhos fritos e porcarias afins de horas atrás. Ainda restavam alguns minutos de luz quando paramos para contemplar a bela paisagem que ia ficando para baixo. A subida era maior e mais inclinada do que lembrávamos com ensaboados pedriscos dificultando demasiadamente nossa empreitada ladeira acima, não demorando para o grupo se dividir com uns pedalando e outros se obrigando a empurrar, embora todos suando da mesma maneira. Já estávamos no cume da trabalhosa montanha quando a escuridão se impôs e após uma longa respirada, descemos num entusiasmo muito vivo tentando esquecer o tanto que havíamos subido. Ribeirão da Ilha é um tradicional vilarejo que resiste um pouco aos avanços da modernidade e preserva com competência suas tradições açorianas. É o maior produtor de ostras do Brasil e entre as rendeiras, casarios típicos, canoas e baleeiras, lugar para encher o bandulho com frutos do mar é o que definitivamente não falta.

Beiramos a Baía Sul pela famosa Baldicero Filomeno ouvindo Zumbis do Espaço como o último petardo da noite, pouco antes da bateria da bem usada JBL acabar. Nos afastamos um pouco do mar para cruzar o bairro Carianos até reencontrá-lo na deserta e fantasmagórica ciclovia da avenida Beira-Mar Sul. Um pouco antes, pela estrada nova do Aeroporto (e esperamos muito que não surja uma derivada da banda EVA por aqui), sentimos muita aflição com carros em demasia passando descabidamente muito próximos e muito rápidos, num longo trecho totalmente sem iluminação e somente entendemos as constantes e rudes buzinadas quando ao final, percebemos a bela ciclovia postada lá do outro lado da avenida. Marcos Paulo foi o primeiro a desgarrar e subiu em alguma ruela perto do Armazém Vieira. Mal teve forças para dar tchau e sequer fizemos questão de rir, já que estávamos concentrados pensando no que iríamos jantar. Cruzamos novamente a Ponte Hercílio Luz com o Rodrigo ficando pelo caminho em algum lugar do Estreito enquanto Flávio e Fernando ainda tinham uma longa beiradinha por pedalar até as cidades vizinhas de São José e Palhoça.

Florianópolis outrora já foi conhecida por “Ilha de Santa Catarina” e muito antes, antes mesmo da invasão e colonização europeia, a nossa Ilha da Magia era chamada pelos índios locais de Meiembipe, a Montanha ao longo do mar. Sabidamente já foi habitada por Boitatá, Saci, Curupira, Caipora, Sereias, Boiguaçu e Bruxas que até voam quando precisam. Dizem ter 42 praias, mas sabemos que é mais, bem mais. Existem duas grandes lagoas, uma doce e outra salobra. Papa João Paulo II já rezou missa por aqui, Eric Clapton fez show no Orlando Scarpelli e um dos Beatles já tocou na Ressacada. Mas o legal mesmo foi ter ido assistir Brujeria no Célula um pouco antes da pandemia modificar todas as nossas vidas.

Viva Floripa cabrón!

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